O preço do leite voltou a ser assunto de conversa nas filas de supermercado — e também nas reuniões de quem produz.
Em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, o litro do leite longa vida já é encontrado próximo de R$ 7, dependendo da marca e do estabelecimento. É um valor que pesa no orçamento das famílias, mas que, na outra ponta da cadeia, não se traduz no mesmo ritmo de ganho para quem cria o gado e tira o leite todos os dias.
Segundo Otaviano Pires, presidente da Associação dos Criadores de Gado Leiteiro do Norte de Minas, em janeiro deste ano havia casos de pagamento de apenas R$ 1,50 por litro ao produtor da região. O valor subiu ao longo dos meses e hoje gira em torno de R$ 2,30 por litro. É uma melhora real — mas que ainda deixa uma distância considerável entre o que chega ao bolso de quem produz e o que o consumidor paga na prateleira, onde o litro já bate quase R$ 6.
Essa distância não nasce de um único fator, segundo Pires. Ele aponta a falta de apoio governamental aos produtores, o custo alto dos insumos necessários para manter o rebanho, a escassez de mão de obra — cada vez mais cara e difícil de encontrar — e um problema que preocupa especialmente o setor: a importação de leite em pó de países vizinhos, muitas vezes sob suspeita de triangulação de produtos vindos de outras localidades. Para o presidente da associação, essa combinação de fatores empurra o preço para baixo na porteira e desestimula produtores, a ponto de alguns pensarem em abandonar a atividade.
O curioso é que, nesse cenário nacional de acomodação de preços, Minas Gerais aparece na contramão. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que, em agosto, as sinalizações dos Conseleites indicaram queda na maioria dos estados — mas Minas foi o único a registrar aumento no valor pago ao produtor. Na média brasileira, o litro alcançou R$ 2,87 no pagamento de agosto, alta de 4,65% em relação a julho e de 4,96% na comparação com agosto de 2025. O Cepea atribui esse movimento a um crescimento ainda lento da captação de leite combinado com boa demanda por leite UHT, o que manteve a concorrência pelo produto e sustentou os valores pagos aos pecuaristas.
Entre a propriedade rural e a prateleira do mercado, existe uma cadeia inteira de etapas — transporte, resfriamento, processamento, industrialização, distribuição, impostos, comercialização — que ajuda a explicar por que o reajuste não chega de forma equivalente às duas pontas. Mas é justamente essa desproporção que tem levado o consumidor a mudar de comportamento.
É o caso da assistente de escritório Rogéria Barbosa, mãe de duas crianças, que até pouco tempo comprava um fardo com doze caixas de leite por vez. Na última ida ao supermercado, levou apenas seis — e passou a dar preferência ao leite em pó. “Com esse preço alto, eu consigo fazer o leite em pó render mais, digamos assim — coloco chocolate em pó e os meninos nem percebem. Sei que não é muito saudável, mas temos que adaptar por enquanto”, conta. Ela também notou alta no iogurte e no achocolatado que os filhos levam para a escola.
O comportamento dos preços ao longo da cadeia pode variar conforme região, indústria, qualidade do leite, oferta, demanda e custos de produção e distribuição — e é justamente essa variação que faz de Minas Gerais um caso à parte no cenário nacional. Para os próximos meses, a perspectiva do Cepea é de continuidade na tendência de alta, ainda que o cenário geral continue sendo classificado como instável.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por O Norte de Minas






