Enquanto a Selic em 14% ao ano torna cada vez mais caro o crédito rural e empurra produtores menos estruturados para fora da atividade, a família Wacherski segue uma regra que nunca quebrou em mais de quatro décadas na fazenda: nenhum investimento na propriedade é feito com dinheiro emprestado.
A Chácara Ressaca fica em Castrolanda, distrito rural de Castro, no Paraná, uma das principais bacias leiteiras do país. Vitalino Wacherski começou a história há mais de 40 anos, num barracão simples, com apenas 32 vacas da raça holandesa em lactação e uma produção de 200 litros de leite por dia.
Hoje, com 175 vacas em lactação, a fazenda produz uma média diária de 6.900 litros — um salto que caminhou lado a lado com uma disciplina financeira que Vitalino resume sem rodeios: “Faço os investimentos na propriedade com recursos próprios. Nunca fiz financiamento, porque tenho medo de dívida.” A única exceção nesses 40 anos foram as placas de energia solar, parceladas diretamente com o fornecedor.
O método funciona antes mesmo de qualquer compra ser decidida. “Pesquisamos o custo, avaliamos o poder aquisitivo que temos naquele momento e programamos a compra. Primeiramente, fazemos o alicerce financeiro”, explica Vitalino, que hoje administra o negócio ao lado dos três filhos.
Cada um assumiu uma frente: Lariane cuida da sanidade e da genética do rebanho, incluindo a seleção de touros com alto valor genético; Larissa responde pela higiene, pela limpeza e, junto com a irmã, pelas inseminações; e Marçal é responsável pela alimentação, cultivando milho e azevém em 40 dos hectares da propriedade para produzir silagem e pré-secado — o que permite economizar na compra de fubá e ração, mesmo com a nutrição representando 71,84% do custo de produção.
Os resultados aparecem nos números. Cada vaca produz, em média, 40 litros de leite por dia — acima da faixa de 30 a 35 litros por vaca ao dia que a Embrapa Gado de Leite registra em propriedades com sistemas mais intensivos em capital. A contagem de células somáticas (CCS) é de 90.000/mL e a contagem padrão em placas (CPP) fica abaixo de 1.000 UFC/mL, indicadores que atestam a saúde do rebanho e a qualidade da ordenha — e que rendem bonificação da indústria ao produtor.
O modelo da família não é isolado: a Chácara Ressaca integra a Rota do Leite, iniciativa que expõe as propriedades mais eficientes da região aos visitantes da Agroleite, feira anual da Cooperativa Castrolanda. Mas o cenário nacional caminha em direção oposta ao dos Wacherski. Segundo o IBGE, o número de fazendas dedicadas à bovinocultura leiteira caiu de 874.500, em 2006, para 634.500, em 2017; estimativas do Centro de Inteligência do Leite (CILeite) da Embrapa apontam cerca de 513.000 propriedades em 2025 — uma queda de 41,3% em quase 20 anos.
Ao mesmo tempo, quem permanece na atividade produz cada vez mais: a produtividade média por vaca saltou de 1.105 litros ao ano, em 2000, para 2.362 litros, em 2024, e a produção nacional de leite passou de 19,7 bilhões para 35,7 bilhões de litros no período, segundo dados da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do IBGE compilados pelo CILeite.
Para Glauco Carvalho, economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite, o mercado atual favorece justamente quem controla seus custos e investe em tecnologia. “São os que têm mais sucesso na atividade. Aqueles que não fazem o controle leiteiro e não investem em tecnologia têm dificuldade de permanecer”, afirma.
Ele lembra ainda que entre 70% e 80% dos produtores de leite do Brasil são classificados como “pequenos” — justamente o grupo mais afetado pela desistência da atividade, embora a tendência de curto prazo aponte para crescimento na produção também nesse segmento.
Já Christiano Nascif, diretor da consultoria Labor Rural, avalia como “conservador” o modelo adotado pelos Wacherski — e reconhece que nem todo produtor tem condições de sustentá-lo.
Com a Selic em 14% ao ano, ele é direto: “Dificilmente eles conseguem pagar um empréstimo com essa taxa.” Segundo Nascif, é o pecuarista de porte médio quem mais corre risco no cenário atual, por ter capital empatado alto demais para abandonar a atividade de uma hora para outra, mas sem a estrutura tecnológica dos grandes produtores nem a flexibilidade de mão de obra familiar dos pequenos.
Para ele, os indicadores que sustentam um rebanho saudável financeiramente incluem manter ao menos 45 de cada 100 vacas em lactação — hoje a média brasileira gira em torno de 20% — e garantir caixa mínimo mesmo em propriedades patrimonialmente sólidas: “É inadmissível que o produtor que tem um patrimônio avaliado entre R$ 3 milhões e R$ 10 milhões não tenha R$ 10.000 no caixa. Economicamente ele está bem, mas financeiramente está mal.”
O veterinário Gilberto Foltran, consultor da Elanco Saúde Animal que atende a propriedade, atribui parte dos resultados sanitários da fazenda também ao histórico da região: os primeiros trabalhos de melhoramento genético do país começaram nos Campos Gerais, o que ajuda a explicar os atuais níveis de produtividade e qualidade do rebanho local.
Com a estrutura consolidada, a próxima etapa já está definida: ampliar o sistema free stall para novilhas, vacas prenhas e animais destinados à inseminação — sempre, segundo a lógica que guia a família há 40 anos, com capital próprio.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Globo Rural






