Silagem | A previsão de El Niño para o segundo semestre de 2026 reacende um alerta que todo produtor de leite conhece bem: clima instável significa forragem mais difícil de conservar.
E é justamente na conservação — não na lavoura — que se decide boa parte do resultado nutricional e econômico de uma propriedade leiteira.
O dado que mais chama atenção é a dimensão real das perdas de matéria seca ao longo do processo de ensilagem. Elas começam já na colheita, no transporte e no enchimento do silo, com uma faixa estimada entre 1% e 4% — decorrente de situações como acamamento de plantas, derramamento de material por caminhões sobrecarregados ou mau direcionamento do jato de descarga da colhedora.
O maior salto, porém, acontece depois que o silo é fechado. A respiração das células vegetais e dos microrganismos consome açúcares e oxigênio até o ambiente se tornar anaeróbio, dando início à fermentação — processo indispensável para conservar a forragem, mas que também gera perdas naturais de matéria seca.
Quando o pH cai rápido e de forma eficiente, essas perdas ficam controladas. Quando demora, ou quando se desenvolvem microrganismos indesejáveis, a faixa de perda salta para entre 5% e mais de 20%, dependendo da espécie forrageira, do teor de matéria seca e da qualidade da ensilagem.
A fase mais crítica de todas é o desabastecimento do silo, quando as perdas podem variar de 3% a mais de 30%, conforme as condições de manejo e a estabilidade da silagem construída na fermentação. O aquecimento da massa — principal sinal de deterioração aeróbia — resulta do crescimento de leveduras e outros microrganismos indesejáveis, reduz o valor nutritivo, diminui o consumo pelos animais e ainda favorece fungos filamentosos, elevando o risco de micotoxinas.
Para dimensionar o impacto no rebanho: uma perda de 10% significa que, de 100 toneladas de matéria seca colocadas no silo, apenas 90 chegam ao cocho. Considerando que uma vaca leiteira consome em média 13 kg de matéria seca de forragem por dia, essas 10 toneladas perdidas equivalem ao alimento necessário para manter cerca de 25 vacas por 30 dias — um número que, multiplicado pela escala de qualquer propriedade, expõe o real custo de uma fermentação malconduzida.
Diante desse cenário, os inoculantes bacterianos aparecem como ferramenta para direcionar a fermentação e reduzir essas perdas. Bactérias homofermentativas aceleram a produção de ácido lático e a queda do pH, encurtando o período em que microrganismos indesejáveis permanecem ativos — estratégia especialmente indicada para gramíneas tropicais, com menos carboidratos solúveis, e leguminosas, de maior capacidade tampão.
Já bactérias heterofermentativas, como Lentilactobacillus buchneri e Lentilactobacillus hilgardii, produzem metabólitos de ação antifúngica, principalmente ácido acético, que inibem leveduras e fungos e aumentam a estabilidade aeróbia após a abertura do silo — algo particularmente relevante para silagens de planta inteira de milho, sorgo, cana-de-açúcar e silagens de grãos.
Vale destacar que nenhum inoculante corrige sozinho falhas de manejo: compactação inadequada, vedação deficiente ou manuseio incorreto do painel do silo continuam sendo pontos que nenhuma bactéria resolve.
A escolha do produto deve considerar a espécie forrageira, os desafios específicos do processo de ensilagem e as particularidades de cada propriedade, sempre respaldada por pesquisa científica consistente.
Em um ano de maior incerteza climática, cada ponto percentual de matéria seca conservada representa mais alimento disponível, mais estabilidade produtiva e mais segurança econômica para quem depende do leite para viver.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por O Presente Rural






