O tema ultrapassa as redes sociais. Em 2011, o pesquisador Jean-Loïc Le Quellec publicou, na revista Anthropozoologica, um estudo sobre a insuflação e suas possíveis representações na arte rupestre do Saara.
O trabalho reúne documentação histórica e etnográfica e analisa imagens de antigos criadores com seus animais. Entre os exemplos estão gravuras na região de Messak, na Líbia, interpretadas como possíveis cenas da prática.
Esses registros ajudam a estudar a história da ordenha, mas não equivalem a um ensaio experimental que comprove ganhos de produção. Também é importante distinguir uma interpretação arqueológica da confirmação de todos os detalhes de uma cena.
Produzir leite não é o mesmo que fazer o leite “descer”
O leite é formado na glândula mamária. Para que uma parcela importante desse leite fique disponível durante a ordenha, ocorre o reflexo de ejeção, conhecido no campo como “descida do leite”.
Nesse processo, a ocitocina tem papel central. O hormônio estimula a contração das células que envolvem os alvéolos mamários, deslocando o leite para os compartimentos de onde poderá ser retirado.
Em orientações sobre manejo, a Penn State Extension explica que o preparo dos tetos antes da ordenha estimula essa resposta. Higienização, secagem e estímulo adequado fazem parte de uma rotina que favorece a liberação do leite.
Facilitar a ejeção não significa que o animal começou a fabricar mais leite naquele instante. Por isso, não é correto apresentar o sopro como um mecanismo que provoca uma “falsa gravidez” e, por consequência, cria uma nova lactação. As fontes consultadas não sustentam essa explicação.
O estresse também interfere na ordenha
Uma vaca pode ter leite no úbere e apresentar dificuldade para liberá-lo. Medo, dor, barulhos intensos, movimentação brusca e manejo agressivo podem prejudicar a resposta de ejeção.
Segundo a extensão da Universidade de Wisconsin–Madison, situações estressantes podem ativar a liberação de adrenalina e interferir na resposta à ocitocina. O resultado pode ser atraso na descida do leite e retirada incompleta durante a ordenha.
Na prática, isso reforça a importância de uma rotina previsível, condução tranquila e cuidados com a saúde do úbere. Dificuldades recorrentes merecem avaliação da equipe técnica, inclusive para identificar problemas de manejo ou de funcionamento do equipamento.
Um registro cultural não é uma recomendação de manejo
O “sopro na vaca” deve ser apresentado como um costume documentado em contextos históricos e culturais específicos. Sua existência não autoriza afirmar que seja seguro, necessário ou superior aos procedimentos empregados na pecuária leiteira atual.
As orientações técnicas consultadas priorizam o preparo dos tetos e o manejo tranquilo. Não apresentam a insuflação genital como procedimento indicado para a rotina de ordenha.
A curiosidade da cena está na história da relação entre pessoas e bovinos. Para a produção leiteira, a informação fundamental é compreender a fisiologia da vaca e favorecer uma ordenha higiênica, tranquila e bem conduzida.