O acordo com a UE está a semanas de ser finalizado e recoloca o agro australiano diante de uma equação clássica de livre comércio: mais acesso externo em troca de maior concorrência interna.
Para produtores, o que muda são quotas, tarifas e regras de uso de nomes tradicionais.
Após anos de negociação e uma ruptura em 2023, o novo entendimento deve ser assinado em breve. O governo federal afirma que só aceitará termos superiores aos discutidos anteriormente e alinhados ao interesse nacional e da agricultura.
No setor de lácteos, o foco é defensivo. A União Europeia é descrita por representantes australianos como a maior produtora de queijo do mundo, com capacidade excedente. A abertura pode ampliar a presença de produtos europeus no varejo local. Para lideranças do setor, uma entrada adicional de queijos pressionaria margens e competitividade doméstica.
Além do fluxo físico de mercadorias, há a disputa por denominações geográficas. Bruxelas busca restringir o uso de nomes como feta, parmesão e mozzarella. A incerteza regulatória também alcança o vinho. No estado de Victoria, o King Valley concentra a produção de prosecco desde 1999, hoje avaliada em cerca de 200 milhões de dólares australianos. Produtores defendem a manutenção do nome e veem o desfecho como decisivo para o posicionamento de longo prazo.
Se para lácteos e vinhos o tom é de cautela, a carne vermelha adota postura ofensiva. Produtores de cordeiro no sul de New South Wales afirmam que o acesso ampliado ao mercado europeu de alto valor é estratégico. Desde 1930, a Nova Zelândia detém 87% da quota de carne ovina na UE, o que limita a participação australiana. O setor pleiteia reequilíbrio e tratamento recíproco, argumentando que a UE já possui acesso relativamente aberto ao mercado agrícola australiano.
O açúcar também busca espaço. Após uma queda global de quase 40% nos preços desde abril de 2025, produtores pressionam por acesso tarifário semelhante ao concedido ao Mercosul. Em janeiro, a UE fechou acordo com o bloco sul-americano, prevendo 180 mil toneladas de açúcar bruto do Brasil com tarifa zero. A indústria australiana defende condição equivalente, alegando que refinarias europeias pagariam prêmio pelo produto, desde que tarifas elevadas sejam removidas.
O contexto internacional adiciona urgência. Tensões tarifárias nos Estados Unidos, com sinalização de elevação de tarifas de importação, reforçam o argumento de diversificação de mercados.
Restam poucos pontos em aberto após reuniões recentes em Bruxelas entre autoridades australianas e europeias. Quando concluído, o texto seguirá para aprovação política final. Para o agro, o impacto dependerá de três variáveis concretas: volume de quotas, cronograma de redução tarifária e regras sobre nomes protegidos. É nessa combinação que se definirá quem ganha escala e quem enfrenta maior pressão competitiva.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de ABC News






