O parmesão pode ser sinônimo de sabor e tradição na culinária italiana — mas, na região de Emilia-Romagna, ele também funciona como garantia financeira.
Há décadas, o banco Credito Emiliano (Credem) aceita rodas do famoso queijo Parmigiano Reggiano como colateral para empréstimos destinados principalmente a pequenos produtores.
A prática começou em 1953 e segue ativa até hoje. Atualmente, mais de 400 mil rodas estão armazenadas em estruturas que se assemelham a cofres-fortes climatizados, avaliadas em cerca de 119 milhões de euros (aproximadamente R$ 736 milhões).
A lógica do sistema é tão simples quanto curiosa. O produtor entrega rodas ainda jovens ao banco e recebe um financiamento equivalente a cerca de 70% a 80% do valor de mercado do queijo. Enquanto o crédito está em vigor, o parmesão permanece guardado — e amadurecendo — por períodos que variam de 18 a 36 meses.
Esse detalhe faz toda a diferença: ao contrário de muitos bens usados como garantia, o queijo tende a se valorizar com o tempo. Assim, o produtor ganha liquidez para manter a operação, enquanto o ativo continua aumentando de valor dentro do armazém.
Um cofre que literalmente cheira a queijo
Para preservar a qualidade do produto, o Credem mantém depósitos com temperatura e umidade controladas. As rodas são monitoradas regularmente, viradas para garantir maturação uniforme e protegidas por seguros contra roubo ou danos.
Cada unidade pode valer entre cerca de R$ 1,8 mil e mais de R$ 6 mil, dependendo do tempo de cura e das características do lote. Essa combinação transforma o parmesão em um ativo relativamente fácil de armazenar e comercializar.
Caso ocorra inadimplência, o banco assume a posse das rodas e vende o queijo no mercado — uma operação considerada viável devido à demanda global constante e ao histórico de preços estáveis do produto.
Dados disponíveis até outubro de 2025 reforçam essa força comercial: pela primeira vez, as exportações de Parmigiano Reggiano superaram as vendas domésticas, respondendo por 53,2% do total.
Por que o modelo funciona?
Alguns fatores ajudam a explicar o sucesso do sistema:
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O parmesão costuma valorizar durante o envelhecimento;
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A produção é lenta, criando necessidade real de crédito;
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O banco empresta apenas parte do valor estimado do queijo.
O modelo se tornou objeto de estudo da Harvard Business School, que o cita como exemplo de como sistemas financeiros podem se adaptar às características de produtos tradicionais e, ao mesmo tempo, fortalecer economias locais.
Na prática, o Credem transformou uma atividade aparentemente banal — guardar queijo — em um mecanismo financeiro eficiente. Para quem visita os armazéns, a cena impressiona: corredores inteiros formados por prateleiras altas, repletas de rodas douradas que representam não apenas alimento, mas também confiança econômica.
Pode soar como anedota de viagem gastronômica, mas o caso mostra como tradição e inovação podem caminhar juntas. Em Emilia-Romagna, o parmesão não é apenas um símbolo cultural — é também uma garantia concreta de crédito.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Metropoles






