O Brasil é, disparado, o principal polo de inovação tecnológica para o agronegócio na América Latina e no Caribe.
Um levantamento da Embrapa em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) mapeou 2.656 startups do setor em 23 países da região — e 2.075 delas, ou 78% do total, estão em território brasileiro.
Agricultura de precisão, inteligência artificial, automação, monitoramento remoto e rastreabilidade são as frentes onde essas empresas mais avançam, formando um ecossistema que, segundo o próprio estudo, ainda está em maturação, mas já tem o país como seu centro gravitacional.
Esse protagonismo tecnológico, no entanto, convive com uma lacuna que atravessa toda a cadeia: a gestão das cooperativas agropecuárias segue dependendo, em boa parte, de sistemas pensados para empresas tradicionais — não para o regramento jurídico, contábil e tributário próprio do modelo cooperativista.
É uma fronteira que concentra originação, logística e comercialização, inclusive para o mercado externo, mas que ficou fora do alcance da onda de inovação que tomou conta da produção no campo.
São Paulo ilustra bem o tamanho do que está em jogo. O estado responde por 24% do PIB do agronegócio brasileiro e por quase 19% de sua própria economia, de acordo com dados do Cepea/Esalq-USP referentes a 2024 — ano em que também se consolidou como o maior exportador agrícola do país, puxado pelo complexo sucroalcooleiro, carnes, soja e sucos.
É justamente nesse tipo de operação, de grande volume e forte inserção internacional, que a ausência de ferramentas de gestão específicas para cooperativas mais pesa.
Luis Carlos Crema, CEO da SOLTERRA Soluções Inteligentes, resume o problema: mesmo com todo o avanço das tecnologias voltadas à produção agrícola, a gestão cooperativista continua carente de soluções pensadas para suas particularidades.
A conta que muda em 2027
Esse descompasso ganha urgência com a reforma tributária. A partir de 2027, PIS e Cofins deixam de existir e entra em vigor a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), trazendo o produtor rural para dentro do circuito de tributação pela primeira vez.
Quem fatura acima de R$ 3,6 milhões por CPF passa a ser contribuinte obrigatório, o que transforma a capacidade de gerar e aproveitar créditos tributários em uma peça central das negociações entre produtores, cooperativas, cerealistas e agroindústrias.
2026 funciona como um período de ajuste: ainda é possível corrigir processos sem que falhas gerem penalidades, uma janela que se fecha assim que as novas regras entram em vigor. Para Crema, o risco está em quem chega despreparado a esse novo ambiente.
“O produtor rural passará a integrar um novo modelo tributário sem experiência anterior nesse ambiente. Se não houver integração entre a gestão da fazenda e da cooperativa, muitos só perceberão o impacto financeiro depois que ele ocorrer. Quanto antes essa organização for feita, menor tende a ser o efeito no caixa da safra”, afirma.
A mensagem por trás do estudo da Embrapa e do alerta de Crema converge: o Brasil pode liderar em agtechs, mas o cooperativismo — estrutura que sustenta boa parte da originação agropecuária no país, incluindo a láctea — só vai atravessar essa transição tributária sem sobressaltos se a tecnologia de gestão acompanhar o mesmo ritmo da tecnologia de produção.






