A crise do leite no Alto Paranaíba se intensificou em fevereiro de 2026 sob efeito direto das importações e da perda de rentabilidade nas propriedades.
Mesmo sendo um dos principais polos produtores do país, a região enfrenta margens comprimidas e crescente pressão financeira.
Em Minas Gerais, o preço pago ao produtor oscila entre R$ 2,02 e R$ 2,33 por litro. Relatos apresentados em audiências públicas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais indicam situações em que o valor recebido fica até R$ 0,50 abaixo do custo de produção. A consequência é operação com margem mínima ou prejuízo recorrente.
Ao longo de 2025, a queda acumulada do preço do leite variou entre 22% e 25%. No início de 2026, a recuperação não ocorreu de forma integral. O Conseleite-MG projetou valor de referência próximo a R$ 2,32, mas produtores relatam instabilidade nas negociações com laticínios e renda ainda pressionada.
Segundo Fausto Amaral da Fonseca, presidente da Coopa, o mercado interno foi desestabilizado pela substituição do produto nacional por volumes vindos da Argentina, da Europa e da Nova Zelândia. Antes desse movimento, o produtor brasileiro recebia em média R$ 3,00 por litro. A entrada de leite estrangeiro, impulsionada por excesso de oferta global e crises externas, coincidiu com retração do consumo doméstico, ampliando o desequilíbrio entre oferta e demanda.
O impacto é sensível em uma região responsável por cerca de 7% da produção nacional. No Alto Paranaíba, a atividade é altamente tecnificada, com investimentos recentes em genética, infraestrutura e tecnologia. Muitos produtores assumiram compromissos financeiros quando o litro estava em patamar mais elevado. Com a desvalorização atual, parte deles opera descapitalizada e com dívidas contratadas em cenário distinto.
As importações de leite em pó do Mercosul, especialmente da Argentina e do Uruguai, tornaram-se foco de contestação regional. Entidades como o Sindicato Rural de Rio Paranaíba e a Cemil levaram o tema ao debate público. O setor aguarda decisão prevista para maio de 2026 sobre investigação de dumping relacionada às importações, que poderá resultar em medidas comerciais.
Além do ambiente externo, a Reforma Tributária em vigor a partir de 2026 introduz nova camada de complexidade. Produtores com faturamento superior a R$ 3,6 milhões tornam-se contribuintes obrigatórios do IBS e da CBS. Aqueles abaixo desse limite podem optar pela adesão. Enquanto grandes produtores poderão utilizar créditos tributários, pequenos relatam dificuldades de adaptação ao novo modelo.
O conjunto de fatores revela um quadro em que preços deprimidos, aumento da concorrência externa e mudanças tributárias convergem sobre uma região estratégica para o abastecimento nacional.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Jornal de Patrocínio






