A crise do leite em SC se consolida como um problema de margem: custos elevados e baixa remuneração ao produtor comprimem a rentabilidade e colocam em risco a continuidade da produção.
O diagnóstico, feito por lideranças do setor no estado, aponta um descompasso que já começa a afetar decisões produtivas e pode alterar o equilíbrio da cadeia.
O ponto central é econômico. Os preços pagos ao produtor não cobrem os custos, que aumentaram de forma significativa nos últimos anos. Energia mais cara e efeitos de conflitos internacionais são citados como vetores diretos desse encarecimento. Houve tentativa de recomposição de preços, mas insuficiente. Qualquer ganho recente foi rapidamente absorvido pelos custos, mantendo o produtor em situação de defasagem.
Esse mecanismo gera uma resposta previsível na base produtiva. Com margens negativas ou muito estreitas, produtores passam a priorizar a sobrevivência financeira, o que implica redução de investimentos e, potencialmente, menor produção. A leitura do setor é clara: a oferta tende a cair. Esse movimento, por sua vez, desloca a pressão para o elo final da cadeia, com expectativa de aumento de preços ao consumidor no médio prazo.
Outro fator que interfere na dinâmica é a importação de leite em pó. Segundo representantes do setor, indústrias optam pelo produto importado por custo mais baixo, ampliando a oferta interna e reduzindo a demanda pelo leite nacional. Tentativas de regulamentação não geraram efeito prático relevante, já que o produto segue sendo utilizado por diferentes vias. Na prática, isso adiciona um componente competitivo adicional sobre o produtor local, agravando o desequilíbrio de preços.
No curto prazo, o sistema se sustenta porque o produtor absorve prejuízos. Essa transferência de renda ao longo da cadeia ajuda a manter os alimentos com preços relativamente acessíveis, mas não é estruturalmente viável. A incerteza reside exatamente aí: até quando essa absorção será possível sem provocar uma saída mais intensa de produtores da atividade.
O cenário descrito não se limita ao leite, mas reflete uma pressão mais ampla sobre o setor agropecuário. Insumos, diesel e outros custos operacionais continuam elevados, neutralizando esforços pontuais de apoio por parte da indústria. Ao mesmo tempo, há percepção de que políticas públicas têm priorizado o consumidor final, deixando o produtor exposto ao ajuste.
Para a cadeia, o sinal é de atenção. Se a tendência atual se mantiver, o resultado provável é menor produção, risco de escassez em determinados momentos e pressão inflacionária sobre alimentos. A variável crítica passa a ser a viabilidade econômica na origem. Sem recomposição de margens, o ajuste ocorrerá via oferta.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Rádio RuralFM






