O consumidor europeu está redesenhando suas prioridades alimentares, com implicações diretas para a indústria de alimentos e, em especial, para a cadeia láctea.
Segundo dados do EIT Food Consumer Observatory, saúde segue como principal motivador de escolha, mas custo e hábito continuam determinando o que efetivamente chega ao prato.
Mais da metade dos consumidores aponta a saúde como prioridade central, mantendo estabilidade em relação ao ano anterior. Ainda assim, essa intenção não se traduz plenamente em comportamento. Consumidores mais jovens, embora mais interessados em dietas saudáveis, continuam sendo os que mais recorrem a produtos convenientes, frequentemente associados a altos níveis de açúcar, gordura e sal.
O segundo eixo de decisão é a acessibilidade econômica, que ganha relevância ano após ano. O aumento da preocupação com preço indica um ambiente de pressão inflacionária persistente, no qual o consumidor passa a planejar gastos de forma mais ativa. Na prática, isso reduz a disposição para pagar prêmios por atributos como origem sustentável ou produção orgânica.
A sustentabilidade, embora ainda relevante, perde tração. O número de consumidores que declaram intenção de viver de forma sustentável caiu ao longo dos anos analisados. Também há redução na disposição de diminuir o consumo de produtos de origem animal e na compra de alimentos sazonais ou locais. Esse movimento reposiciona proteínas de origem animal, incluindo lácteos, como opções que mantêm espaço na dieta por familiaridade e percepção de valor nutricional.
A proteína, aliás, permanece no centro das decisões alimentares. A maioria dos europeus pretende manter o nível atual de consumo, enquanto cerca de um terço quer aumentá-lo. Esse interesse é mais forte entre consumidores jovens, indicando uma oportunidade clara para produtos com apelo proteico, especialmente em formatos convenientes.
Em contraste, a fibra aparece como o principal déficit nutricional percebido. Uma parcela significativa dos consumidores reconhece não consumir o suficiente, o que abre espaço para posicionamentos que integrem benefícios funcionais. Paralelamente, há intenção de aumentar o consumo de frutas e vegetais, embora esse comportamento ainda não se consolide plenamente.
Outro ponto relevante é a redução no engajamento com alimentos de produção própria ou compra direta de produtores. Apesar disso, consumidores mais jovens ainda demonstram maior disposição para esse tipo de relação, especialmente quando associada a atributos como produção orgânica ou regenerativa.
Para a indústria de alimentos e bebidas, o cenário exige ajustes estratégicos. Produtos ricos em proteína tendem a manter crescimento, enquanto soluções que combinem saúde, conveniência e preço competitivo ganham relevância. Ao mesmo tempo, o enfraquecimento relativo da sustentabilidade como critério de compra sugere que atributos ambientais, isoladamente, já não sustentam diferenciação.
O principal entrave à mudança alimentar permanece duplo: orçamento e hábito. Mesmo com alto nível de consciência sobre o que constitui uma dieta saudável, os consumidores tendem a repetir padrões consolidados, priorizando conveniência e previsibilidade.
Nesse contexto, capturar valor dependerá da capacidade de alinhar proposta nutricional com acessibilidade e facilidade de consumo. A equação não é mais apenas sobre oferecer produtos melhores, mas sobre torná-los viáveis dentro da rotina e do bolso do consumidor europeu.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Reporter






