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14 out 2026
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14 out 2026
Um novo marco comercial de US$ 30 bilhões abre oportunidades para os lácteos americanos na China, embora as tarifas que limitam sua competitividade continuem em vigor.
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Em julho de 2026, os envios americanos de soro seco cresceram 76% em relação ao ano anterior, e as vendas dessa categoria para a China dobraram.

A indústria láctea americana volta a olhar para a China com uma mistura de oportunidade e cautela.

O novo U.S.-China Board of Trade incluiu uma ampla gama de produtos lácteos entre os bens que poderão ser considerados para receber tratamento tarifário mais favorável. A lista publicada pela Casa Branca contempla leite e creme, leite em pó, iogurtes e outros leites fermentados, soro, manteiga e diversas categorias de queijos.

Para Gregg Doud, presidente e CEO da National Milk Producers Federation (NMPF) e ex-negociador agrícola americano, o novo esquema pode oferecer algo que a indústria considera cada vez mais valioso: previsibilidade. Doud sustenta que, no caso da China, um sistema com acordos diretos e canais permanentes entre governos pode ser mais conveniente para o setor lácteo do que ficar exposto exclusivamente às oscilações do mercado.

US$ 30 bilhões, mas ainda não é uma redução aplicada

A Casa Branca e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciaram no fim de setembro um esquema conhecido como “30-for-30”. O Board of Trade recomendou cerca de US$ 30 bilhões em produtos americanos e outros US$ 30 bilhões em bens chineses para receberem, eventualmente, condições tarifárias mais favoráveis. A diferença é importante: trata-se de produtos recomendados para uma futura redução.

O documento oficial estabelece que Estados Unidos e China os considerarão para um melhor tratamento tarifário, de acordo com suas respectivas leis e procedimentos internos. Por isso, ainda não se pode dizer que os lácteos americanos já estejam entrando na China com as novas tarifas. NMPF e U.S. Dairy Export Council (USDEC) reconheceram essa situação ao celebrar a inclusão do setor, mas ressaltaram que as tarifas de retaliação seguem colocando os EUA em desvantagem frente aos concorrentes.

Do leite em pó ao queijo

A inclusão é ampla. A lista oficial para as importações chinesas incorpora códigos correspondentes a leite fluido e creme, produtos lácteos concentrados ou em pó, iogurte, buttermilk, soro, manteiga e diferentes tipos de queijo. Isso significa que o interesse americano não se limita a uma única commodity.

Para a indústria dos EUA, a China pode representar oportunidades tanto em ingredientes quanto em produtos de maior valor agregado. O soro, a lactose, os leites em pó e, progressivamente, o queijo têm sido historicamente os protagonistas desse mercado.

Doud prefere previsibilidade a “mercado puro”

A posição de Doud chama a atenção porque ele não defende um esquema totalmente aberto. O dirigente reconhece que se trata, em certa medida, de comércio administrado, mas sustenta que, para uma relação tão condicionada por decisões governamentais quanto a dos Estados Unidos com a China, isso pode funcionar melhor para os exportadores. “Acho que estamos melhor assim”, afirmou, ao se referir a um sistema com acordos e comunicação direta entre as duas administrações.

É uma opinião da NMPF, não uma conclusão econômica universal. Os defensores do livre comércio podem questionar que os governos administrem compras, tarifas ou produtos prioritários. Doud, por sua vez, enfatiza outro ponto: para uma indústria que vende produtos perecíveis e depende de mercados externos, conhecer as regras e ter a quem recorrer quando surge um problema comercial tem valor econômico.

A experiência da Fase Um

Doud fala de uma posição particular. Foi um dos principais negociadores agrícolas dos EUA durante a primeira administração Trump e participou do acordo conhecido como Fase Um com a China. Segundo relatou, naquela etapa havia contatos frequentes entre autoridades dos dois países para resolver obstáculos que surgiam em portos, embarques ou autorizações.

Para o atual presidente da NMPF, essa comunicação direta permite resolver problemas que, de outra forma, poderiam se arrastar por semanas ou meses. A lição que ele extrai daquela experiência é que a continuidade institucional importa tanto quanto o nível da tarifa.

A China segue sendo um mercado difícil

A aposta não significa que a indústria americana espere uma recuperação automática das compras chinesas. Doud descreveu com duras críticas a situação econômica atual da China e afirmou que a fraqueza da demanda interna torna menos confiável esperar que o mercado absorva sozinho uma oferta americana maior. Essa avaliação é do dirigente.

O que está claro é que os Estados Unidos não competem sozinhos. Nova Zelândia, União Europeia, Austrália e outros grandes fornecedores disputam espaço no mesmo mercado. Para a NMPF, eliminar as tarifas de retaliação permitiria aos exportadores americanos competir em condições mais próximas às de seus rivais.

Os lácteos dos EUA vêm crescendo lá fora

O interesse pela China se explica também pelo peso que as exportações passaram a ter no negócio lácteo americano. Em 2025, os Estados Unidos exportaram produtos lácteos no valor de US$ 9,63 bilhões, 15% a mais que um ano antes. Não foi, porém, um recorde absoluto: ficou pouco abaixo dos US$ 9,66 bilhões registrados em 2022.

No primeiro semestre de 2026, o valor exportado cresceu outros 12%, chegando a US$ 5,31 bilhões. A USDEC apontou, então, que, se esse ritmo fosse mantido, o setor poderia superar pela primeira vez os US$ 10 bilhões anuais. O valor de US$ 10,5 bilhões mencionado por Doud deve ser entendido, portanto, como uma projeção para 2026, e não como faturamento já concretizado.

A China não é o único motor

A expansão exportadora americana tampouco depende exclusivamente da China. O queijo, por exemplo, vem apresentando desempenho muito forte em mercados como México, Coreia do Sul, Austrália e América do Sul. Em julho, os embarques americanos de queijo cresceram 25% em relação ao mesmo mês do ano anterior e atingiram um recorde mensal de 65.256 toneladas.

Isso permite à indústria diversificar riscos. A China continua importante para certas proteínas, soro e outros ingredientes, mas os Estados Unidos buscam evitar que uma única praça determine seu crescimento exportador.

O soro volta a colocar a China no centro

Para o setor lácteo, um dos produtos mais sensíveis na relação bilateral é o soro. A indústria americana tem grande disponibilidade de whey, em razão do crescimento de sua produção de queijo, enquanto a China representa historicamente um mercado importante para esses ingredientes.

Em julho de 2026, os envios americanos de soro seco cresceram 76% em relação ao ano anterior, e as vendas dessa categoria para a China dobraram. O dado mostra por que uma mudança nas condições tarifárias pode ter consequências que vão muito além do leite em pó. À medida que os EUA produzem mais queijo, geram também mais soro, que precisa ser colocado nos mercados internacionais.

O que ainda falta

O novo Board of Trade abre uma porta, mas ainda não garante o resultado. Primeiro, será preciso concretizar a redução das tarifas que hoje continuam afetando os lácteos americanos. Depois, virá outra questão: que a China efetivamente aumente suas compras.

A USDEC foi explícita ao celebrar a inclusão dos lácteos, mas pediu que se avance rapidamente para a eliminação completa das tarifas de retaliação. A NMPF também quer que os produtos lácteos sejam incluídos de forma clara nos compromissos chineses de compras agrícolas.

Mais previsibilidade, mas não vendas garantidas

Esse é o limite da estratégia defendida por Doud. Um acordo entre governos pode facilitar regras, reduzir tarifas e criar mecanismos para resolver problemas. Não pode obrigar o consumidor chinês a comprar mais queijo, leite em pó ou soro americano, nem elimina a concorrência de Nova Zelândia, Europa, Austrália ou outros fornecedores.

Mas, para uma indústria cada vez mais dependente das exportações, reduzir uma barreira comercial já representa um avanço importante. O novo esquema entre Washington e Pequim ainda está em construção. Os lácteos conseguiram entrar na lista. Agora falta o que é decisivo: que as reduções sejam implementadas e que essa vantagem potencial se converta em toneladas efetivamente vendidas.

Fonte principal: entrevista com Gregg Doud, presidente da NMPF. Marco comercial confrontado com USTR, Casa Branca, NMPF e U.S. Dairy Export Council.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por EDairyNews Español

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