ESPMEXENGBRAIND
6 set 2026
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🧀 Um acordo assinado com a Europa colocou dois gigantes das Américas em rota de colisão comercial. Entenda o impasse.
Bilhões de dólares em exportações e nomes como "parmesão" e "feta" estão no centro de uma queda de braço comercial.
Bilhões de dólares em exportações e nomes como "parmesão" e "feta" estão no centro de uma queda de braço comercial.

A disputa do queijo entre EUA e México ganhou um novo capítulo nas negociações comerciais bilaterais deste ano, e o motivo é, literalmente, o nome que um queijo pode ou não levar na embalagem.

No centro do impasse está um acordo comercial que o México assinou com a União Europeia em maio, concedendo proteções especiais — as chamadas Indicações Geográficas — a centenas de produtos europeus, entre eles o Parmigiano Reggiano, o feta e o manchego. Washington considera que esse pacto fecha as portas para que produtores norte-americanos continuem vendendo queijos com esses mesmos nomes no mercado mexicano.

O tamanho do que está em disputa ajuda a entender a pressão. Os Estados Unidos exportam cerca de US$1 bilhão em queijo por ano para o México, enquanto o total das exportações de laticínios da União Europeia para o país soma apenas US$200 milhões.

As importações, impulsionadas principalmente pelos produtos norte-americanos, já respondem por quase 30% do consumo interno mexicano de queijo — um salto expressivo desde a década de 1980, puxado por marcas como o parmesão ralado da Kraft, o manchego “Great Value” do Walmart e a expansão das pizzarias no país.

É justamente esse volume que incomoda o setor produtivo mexicano. Rodolfo Navarro, que dirige uma distribuidora familiar de queijos no México, apoia o acordo com a UE porque ele reduziria as tarifas sobre os queijos importados da Europa, abrindo espaço para um nicho mais sofisticado.

Sua crítica mira os produtores dos Estados Unidos, acusados por ele e por outros fabricantes mexicanos de vender abaixo do custo e pressionar a produção local — um risco que o Instituto de Política Agrícola e Comercial já havia sinalizado em 2023, ao alertar sobre a vulnerabilidade dos laticínios mexicanos frente às exportações baratas dos EUA.

Do lado americano, a leitura é outra. Jaime Castaneda, vice-presidente executivo do Conselho de Exportação de Laticínios dos EUA, classificou a posição mexicana como “absolutamente errada” e cobrou garantias de que fabricantes americanos e mexicanos de queijos com nomes genéricos possam continuar atuando no mercado.

Para Washington, termos como parmesão e feta são genéricos havia muito tempo, enquanto a União Europeia insiste que “parmesão” deveria ser reservado ao Parmigiano Reggiano do norte da Itália, e “feta” a regiões específicas da Grécia.

O escritório do Representante Comercial dos EUA já havia chamado o sistema europeu de Indicações Geográficas de “prejudicial”, argumentando que obrigar produtores de fora do bloco a usar descrições como “imitação de feta” ou “estilo asiago” é oneroso e contribui para um déficit comercial de US$1,2 bilhão dos Estados Unidos no setor de queijos com a UE.

Por trás da disputa de rótulos há também um confronto entre modelos produtivos. “Os EUA sempre foram uma nação de alto volume de consumo, o que é precisamente o oposto do que as denominações de origem representam”, resume Antonio Martinez, diretor de uma organização que protege a denominação regional do manchego, para quem a escala menor dos produtores espanhóis é parte do “charme e identidade única” do produto.

Já Georgina Yescas Trujano, cofundadora da mexicana Lactography, vê no acordo com a UE uma chance de elevar o padrão de consumo no país: “os EUA estão inundando o mercado mexicano com seus queijos porque conseguem vendê-los por um preço muito baixo”, afirma, defendendo que a redução de tarifas sobre os queijos europeus pode ensinar o consumidor mexicano a “comer queijos de melhor qualidade”.

O impasse ocorre em um momento sensível: EUA e México negociam um acordo comercial provisório para fechar ainda este ano, enquanto discussões paralelas buscam renovar o Acordo EUA-México-Canadá, pilar da economia mexicana. Isso dá a Washington poder de barganha justamente sobre um mercado que se tornou bilionário para os exportadores americanos de queijo.

Do lado mexicano, porém, o acordo com a UE ainda não está em vigor: embora já tenha sido assinado e ratificado pelo bloco europeu, falta ao México concluir os trâmites legislativos internos, já que o pacto depende de aprovação parlamentar, segundo o Ministério da Economia do país. A Comissão Europeia, por sua vez, afirmou que não pretende alterar os termos do acordo e disse ter “tomado nota” das ações dos EUA contrárias às proteções dos queijos europeus.

No meio dessa queda de braço geopolítica está um mercado que consome queijo como poucos no mundo — e que segue fiel às variedades locais, como o Oaxaca, de textura fibrosa e ideal para derreter em quesadillas, e o queso fresco, tradicional nas coberturas do café da manhã mexicano.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Forbes

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