ESP – MEX – ENG– BRA – IND
26 set 2026
ESP – MEX – ENG– BRA – IND
26 set 2026
🐐 Um projeto científico levantou milhões apostando que o leite de cabra guardava a chave de um material revolucionário.
seda
🧬 Trilhas sonoras, genes de aranha e um rebanho especial: a história por trás de uma das apostas mais ousadas da biotecnologia.

Durante quase duas décadas, um grupo de cientistas tentou fazer algo que soa a ficção científica: transformar o leite de cabra em fábrica de seda de aranha.

A ideia partiu da empresa canadense Nexia Biotechnologies, que introduziu genes relacionados à produção da fibra em cabras geneticamente modificadas, com o objetivo de que as proteínas fossem secretadas diretamente no leite dos animais.

A escolha do leite como via de produção não era arbitrária. A glândula mamária das cabras funcionava como um sistema biológico já preparado para secretar grandes volumes de proteína de forma contínua — o mesmo mecanismo que, todos os dias, produz o leite que abastece a cadeia láctea, mas redirecionado para gerar uma fibra que a natureza levou milhões de anos para aperfeiçoar nas teias de aranha.

O interesse pela seda não era estético. Resistente, elástica e capaz de manter suas propriedades tanto em calor intenso quanto em congelamento, a fibra também é biocompatível — uma característica que despertava interesse hospitalar para suturas, implantes e outros dispositivos médicos, além de aplicações em vestuário, alimentos e equipamentos de proteção.

O cientista de materiais Ali Alwattari, que havia construído carreira na Procter & Gamble desenvolvendo polímeros para produtos como fraldas, entrou no projeto e encontrou uma operação pouco convencional: cabras de diferentes raças, tamanhos e origens eram mantidas relaxadas com trilhas sonoras específicas, como reggae e rhythm and blues, associadas à procedência de cada grupo animal.

O otimismo em torno do projeto era real. Em 2000, a Nexia levantou US$ 40 milhões em sua abertura de capital, uma das maiores captações do setor de biotecnologia naquele período. Dois anos depois, o próprio presidente da empresa declarou ao The New York Times que a iniciativa representava uma revolução, e as cabras produtoras de seda passaram a estampar jornais e revistas.

Em 2003, a equipe conseguiu produzir a primeira milha de seda artificial feita por humanos — um marco técnico relevante. Mas o entusiasmo começou a esfriar já em 2004: as proteínas de seda obtidas do leite das cabras se mostraram pequenas e frágeis demais para sustentar produção em escala, e depender de animais vivos para gerar fibras sofisticadas se revelou inviável na prática. Alwattari e o vice-presidente de desenvolvimento comercial, Brad Cilley, deixaram a empresa pouco depois, e em 2009 a Nexia declarou falência.

O projeto, porém, não desapareceu por completo. Quando a iniciativa foi dissolvida, os biólogos moleculares Justin Jones e Randy Lewis levaram cerca de 20 cabras remanescentes do Wyoming ao Canadá, em um reboque, de volta ao laboratório. Nos anos seguintes, outros grupos de pesquisa seguiram tentando reproduzir o feito, alguns abandonando as cabras em favor de bactérias e fungos como plataformas alternativas para a mesma proteína.

Duas décadas depois, parte dos pesquisadores que persistiram na busca pela seda engenheirada acredita estar, finalmente, mais perto de resolver os obstáculos que derrubaram a Nexia: o avanço das tecnologias, a queda no custo dos equipamentos e o aprofundamento da compreensão sobre genética molecular reabriram o caminho — impulsionados também pela demanda crescente por materiais sustentáveis e biocompatíveis, tanto na medicina quanto em indústrias que buscam alternativas aos plásticos e às fibras sintéticas.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Compre Rural

Te puede interesar

Notas Relacionadas

Faça login na minha conta