O torneio leiteiro da 64ª Festa do Boi, realizada até sábado (17), no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim, na Grande Natal, passou a avaliar não apenas o volume de leite produzido pelos animais, mas também a composição e a qualidade do produto.
A iniciativa reúne 33 animais das raças Sindi, Guzerá e Sindolando e utiliza análises laboratoriais para identificar características que podem contribuir para o melhoramento genético dos rebanhos e a eficiência da produção leiteira no Rio Grande do Norte.
A mudança foi implementada pela Associação Norte-Rio-Grandense de Criadores (Anorc), responsável pela realização da feira, e busca oferecer aos produtores informações sobre o desempenho dos animais. Além da quantidade de leite obtida durante a competição, são avaliados indicadores relacionados à composição nutricional, à saúde do rebanho e ao potencial de aproveitamento do produto pela indústria de laticínios.
Para o zootecnista e especialista em bovinocultura leiteira Luiz Fernando Trindade, o torneio permite observar os resultados do trabalho de seleção genética realizado nas propriedades. “O principal objetivo do torneio leiteiro é mostrar a expressão genética dos animais.
Quando observamos vacas produzindo cada vez mais a cada ano, temos um indicativo de que o melhoramento genético está evoluindo positivamente. Essa genética também pode ser utilizada como referência para a reprodução de animais com características superiores”, explica.
Entre os critérios incorporados nesta edição estão cinco indicadores utilizados para avaliar a qualidade do leite: gordura, proteína, caseína, sólidos totais e contagem de células somáticas (CCS). Os resultados podem auxiliar os criadores na identificação de animais com características produtivas diferenciadas e na adoção de práticas de manejo e alimentação.
A análise da composição do leite tem importância para a produção de queijos e outros derivados, uma vez que o rendimento industrial depende não apenas do volume disponível, mas também da concentração de determinados componentes.
“As caseínas são componentes importantes da proteína do leite e têm relação com o rendimento na fabricação de queijos. Quando avaliamos os sólidos totais, estamos observando tudo o que o leite contém além da água. Isso faz diferença para o produtor e para a indústria, porque o volume produzido, sozinho, não revela todo o potencial daquele leite”, destaca o especialista.
Segundo Trindade, a diferença na composição pode fazer com que determinados produtores utilizem entre 11 e 12 litros de leite para fabricar um quilo de queijo, enquanto outros conseguem produzir a mesma quantidade com aproximadamente 6,9 litros. O exemplo demonstra como as características do leite podem interferir nos custos e no aproveitamento da matéria-prima.
Outro parâmetro observado é a contagem de células somáticas, utilizada para avaliar aspectos relacionados à saúde da glândula mamária das vacas. O nitrogênio ureico também é analisado, fornecendo informações que ajudam a verificar o aproveitamento da proteína presente na alimentação dos animais.
Análises serão utilizadas para orientar produtores
As amostras coletadas durante o torneio são encaminhadas ao Laboratório de Qualidade do Leite (Laboleite), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), responsável pelas análises. Os dados são registrados em um aplicativo desenvolvido pelo laboratório, que reúne informações sobre as condições produtivas e metabólicas de cada animal.
A proposta é que os resultados sejam utilizados pelos criadores para orientar decisões relacionadas à seleção genética, à alimentação e ao acompanhamento sanitário dos rebanhos.
“É como quando vamos ao médico e ele solicita exames para entender o que está acontecendo com o nosso organismo. A amostra de leite também fornece informações importantes sobre a vaca. Com esses dados, podemos conversar com o produtor, mostrar o que está acontecendo com o animal e indicar caminhos para melhorar os resultados da propriedade”, explica Luiz Fernando.
O torneio também mantém a avaliação quantitativa da produção. Cada animal participa de três dias de acompanhamento, com três ordenhas diárias, totalizando nove ordenhas. O volume acumulado durante esse período é utilizado para estabelecer o desempenho produtivo dos participantes.
As informações obtidas poderão ainda ser associadas aos registros genealógicos dos animais, permitindo analisar a relação entre origem genética, produtividade e qualidade do leite. Com isso, os dados da competição poderão servir de referência para futuras decisões de reprodução e manejo nas propriedades.
Luiz Fernando Trindade considera que a incorporação das análises amplia a utilidade dos torneios leiteiros para os produtores, especialmente pela possibilidade de aplicar os resultados à rotina das propriedades.
“Parabenizo a ANORC e o presidente Orlando Procópio por essa iniciativa. A Festa do Boi está dando um passo importante ao proporcionar ao produtor informações que vão muito além do volume de leite. É um trabalho que permite conhecer melhor cada animal e entender quais caminhos seguir para melhorar geneticamente o rebanho e aumentar a rentabilidade da atividade”, afirma.
O especialista também ressalta que o avanço genético precisa ser acompanhado por melhorias na nutrição, no manejo sanitário e na capacitação dos profissionais responsáveis pelos rebanhos.
Para o presidente da Anorc, o médico-veterinário Orlando Procópio, a expectativa é que os resultados ampliem a troca de conhecimentos entre produtores, técnicos e associações ligadas à atividade leiteira.
“A expectativa é que os resultados do torneio contribuam para ampliar o intercâmbio de informações entre produtores, associações de criadores e profissionais do setor, fortalecendo a evolução da pecuária leiteira no estado. Mais do que uma competição, o torneio leiteiro da 64ª Festa do Boi reafirma o compromisso da ANORC com a inovação e a valorização do produtor rural, ao transformar a avaliação dos animais em uma oportunidade de aprendizado, desenvolvimento genético e melhoria da qualidade do leite”, conclui.
A 64ª Festa do Boi começou em 9 de outubro e segue até o dia 17, no Parque Aristófanes Fernandes. Além do torneio leiteiro, a feira reúne exposições de animais, leilões e atividades voltadas à cadeia produtiva agropecuária do Rio Grande do Norte.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Tribuna do Norte






