O leite é um dos alimentos mais antigos consumidos pela humanidade, mas também um dos que mais incorporaram tecnologia ao longo do tempo.
Presente na dieta humana há pelo menos sete mil anos, o leite de vaca deixou de ser apenas um produto do campo para se tornar uma das commodities agropecuárias mais relevantes do planeta, combinando tradição, ciência, inovação industrial e rígidos protocolos de segurança alimentar.
Registros históricos indicam que os primeiros grupos humanos a ordenhar vacas para consumo viviam em regiões que hoje correspondem à Inglaterra e à Europa Ocidental, por volta de 6.000 anos a.C. Desde então, o leite atravessou civilizações, hábitos culturais e transformações tecnológicas profundas. Atualmente, figura entre os cinco produtos agropecuários mais comercializados do mundo, de acordo com dados internacionais de comércio global.
A relevância do leite vai além dos números. Estima-se que cerca de 1 bilhão de pessoas dependam diretamente do produto para sobreviver, enquanto aproximadamente 600 milhões vivem em 133 milhões de fazendas leiteiras espalhadas pelo mundo. Na prática, quase 10% da população global tem sua renda diretamente ligada à cadeia do leite. Não por acaso, o alimento ganhou uma data simbólica: 1º de junho é celebrado como o Dia Internacional do Leite.
No Brasil, o protagonismo do leite é ainda mais evidente. A indústria de laticínios ocupa o segundo lugar entre os segmentos mais importantes da indústria de alimentos, com uma produção anual em torno de 34 bilhões de litros. Essa engrenagem movimenta uma cadeia extensa e complexa, responsável por quase 10 milhões de empregos diretos e indiretos, segundo estimativas oficiais. Mesmo em cenários econômicos desafiadores, a pecuária leiteira brasileira segue em expansão, com crescimento anual entre 2% e 2,5% em anos recentes.
Essa evolução não aconteceu por acaso. Para André Luiz Rodrigues Junqueira, presidente do Grupo Marajoara Alimentos, um dos principais motores dessa transformação é o comportamento do consumidor. Segundo ele, o público atual é mais atento, informado e exigente quanto à origem, ao processamento e às características nutricionais do leite. Esse novo perfil impulsionou investimentos em tecnologia e ampliou o portfólio de produtos disponíveis no mercado.
Hoje, além do tradicional leite longa vida, o consumidor encontra versões integrais, semidesnatadas, desnatadas e sem lactose, entre outras variações. Esse avanço permitiu que mais pessoas incorporassem o leite à rotina alimentar, atendendo a diferentes necessidades nutricionais e estilos de vida, sem abrir mão de segurança e qualidade.
A tecnologia aplicada ao leite começa ainda no campo e se estende por toda a cadeia industrial. Desde a coleta nas fazendas, passando pelo transporte refrigerado, tratamento térmico, padronização e envase, cada etapa segue protocolos rigorosos. O controle de qualidade é considerado um dos mais exigentes da indústria alimentícia brasileira.
De acordo com o gerente industrial do Grupo Marajoara, Antônio Júnior Vilela, o leite cru que chega à indústria passa por uma verdadeira bateria de testes antes de ser aceito. São cerca de 20 tipos diferentes de análises laboratoriais, incluindo avaliações físico-químicas, microbiológicas e pesquisas de possíveis fraudes. Somente após cumprir todos os parâmetros o produto é liberado para armazenamento e processamento.
No caso do leite UHT, conhecido como longa vida e um dos mais consumidos no mundo, o processo envolve etapas críticas como pasteurização, centrifugação e padronização da gordura. Inicialmente, o leite é aquecido entre 72 °C e 75 °C por cerca de 15 segundos, eliminando microrganismos nocivos e impurezas sólidas. Em seguida, ocorre a padronização, que define se o produto será integral, semidesnatado ou desnatado, conforme o teor de gordura.
A fase seguinte é a ultrapasteurização, na qual o leite atinge temperaturas entre 138 °C e 145 °C por poucos segundos. Esse choque térmico garante a esterilidade do produto sem comprometer suas características nutricionais e sensoriais. Logo após, a homogeneização quebra as partículas de gordura, integrando-as às proteínas e garantindo textura uniforme e estabilidade.
O processo se completa no envase asséptico, realizado em embalagens cartonadas, sem contato com o ambiente externo. Máquinas automatizadas aplicam tampas, agrupam as unidades e realizam a paletização com auxílio de robôs. Durante toda essa etapa final, amostras são coletadas a cada 30 minutos para testes adicionais, assegurando que o leite chegue ao consumidor com qualidade, segurança e confiabilidade.
Assim, um alimento milenar segue se reinventando, mostrando que, quando o assunto é leite, tradição e alta tecnologia caminham lado a lado.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de GN






