Leite integral segue no centro das conversas sobre nutrição e bem-estar, agora impulsionado por estudos que analisam como diferentes tipos de leite podem influenciar a saúde do coração.
Presente na rotina de milhões de pessoas, a bebida — tradicionalmente associada à saúde óssea — passou a ocupar também um espaço relevante no debate cardiovascular.
A dúvida é simples e cotidiana: escolher leite integral, semidesnatado ou desnatado faz diferença real para o organismo? Pesquisas recentes buscaram responder a essa pergunta ao comparar os efeitos de cada variedade tanto na saúde cardíaca quanto na mortalidade geral.
Um alimento completo — independentemente da gordura
Todos os tipos de leite fornecem cálcio, iodo e proteínas, nutrientes considerados essenciais para a formação e manutenção dos ossos. Segundo a Associação Dietética Britânica, reduzir a gordura para produzir versões semidesnatadas ou desnatadas não altera de forma significativa o teor de cálcio, já que esses componentes permanecem na fração aquosa do alimento.
A entidade destaca que tanto o leite integral quanto as opções com menos gordura continuam sendo fontes relevantes de vitaminas e minerais. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) reforça essa avaliação ao afirmar que os benefícios nutricionais são preservados independentemente do teor de gordura.
Tom Sanders, professor emérito do King’s College de Londres, acrescenta que a diferença na quantidade de vitamina A entre o leite integral e o semidesnatado não costuma ter importância clínica na maioria dos casos. Assim, qualquer versão pode ser considerada uma escolha nutritiva e versátil.
O que dizem os estudos sobre o coração
A relação entre consumo de leite e doenças cardiovasculares tem sido investigada há décadas. Um artigo publicado no The American Journal of Clinical Nutrition resume o cenário: as associações entre ingestão de leite, enfermidades cardíacas e mortalidade variam conforme o tipo consumido.
As evidências mais recentes apontam que pessoas que consomem mais leite integral apresentam maior risco de morte por todas as causas e por doenças cardiovasculares quando comparadas àquelas que preferem versões com menos gordura.
O NHS explica que a maior parte da gordura presente no leite é saturada — e, quando ingerida em excesso, pode elevar o colesterol sanguíneo, aumentando a probabilidade de infarto ou acidente vascular cerebral. Por isso, diretrizes internacionais recomendam limitar a ingestão de gorduras saturadas e priorizar as insaturadas.
Um estudo norueguês acompanhou 73.860 participantes durante 33 anos. Os resultados mostraram que indivíduos com maior consumo de leite integral tiveram um risco 22% maior de morte por qualquer causa e 12% maior de mortalidade cardiovascular em comparação com aqueles que bebiam menos.
Já os participantes que optavam por leite com teor reduzido de gordura apresentaram 11% menos risco de mortalidade geral e 7% menos risco de doença cardíaca — dados que permaneceram consistentes mesmo após excluir mortes prematuras e pessoas com doenças pré-existentes.
Nem vilão, nem herói
Apesar dessas diferenças, nem todos os especialistas interpretam os lácteos como um problema. Walter Willett, professor da Universidade de Harvard, observa que os produtos lácteos podem ser “neutros” para a saúde cardiovascular, dependendo do que substituem na dieta.
Segundo ele, trocar leite integral por versões com menos gordura tende a gerar apenas um benefício modesto. O conceito de neutralidade indica que, no conjunto da alimentação, os lácteos não são necessariamente mais prejudiciais nem mais saudáveis do que outros alimentos comuns.
Escolha também passa pelo estilo de vida
Leites semidesnatados e desnatados contêm menos calorias e gordura saturada, mas preservam proteínas e micronutrientes — característica que os torna atrativos para quem busca controlar o peso ou reduzir o colesterol.
Sanders ressalta que não há motivos de saúde para migrar do semidesnatado para o leite integral, já que isso elevaria o consumo de gordura saturada e calorias. Ele também esclarece que o leite desnatado não é classificado como ultraprocessado, pois passa apenas por processos mecânicos simples, como retirada da gordura e pasteurização.
Textura e sabor também entram na equação diária — o leite integral, por exemplo, costuma produzir uma espuma mais cremosa em cafés e iogurtes. Ainda assim, na ausência de riscos específicos, a decisão pode refletir preferências pessoais e necessidades energéticas.
No consenso dos especialistas, o padrão alimentar geral pesa mais do que a escolha isolada de um tipo de leite. Willett recomenda evitar compensar a redução de gordura com açúcares ou amidos refinados e sugere priorizar uma dieta que combine lácteos, frutas, vegetais e proteínas de origem vegetal, sem elevar o total de calorias.
Com tantas opções disponíveis, adaptar o consumo ao próprio estilo de vida parece ser a estratégia mais prudente — mantendo o leite como uma fonte cotidiana de nutrientes enquanto se busca equilíbrio para proteger o coração.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Infobae






