ESPMEXENGBRAIND
6 fev 2026
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Futuros de lácteos disparam apesar do aumento da produção, revelando um bull market que poucos previram e que desafia os modelos clássicos do setor.
A combinação de short squeeze, estoques menores e demanda ativa cria um cenário altista que pega o setor de surpresa. Mercado.
A combinação de short squeeze, estoques menores e demanda ativa cria um cenário altista que pega o setor de surpresa.

O mercado global de lácteos atravessa um dos movimentos mais desconcertantes dos últimos anos.

Os futuros de manteiga, queijo e leite em pó disparam em plataformas como EEX, CME e SGX, desafiando a lógica tradicional de oferta e demanda em um contexto no qual a produção de leite continua crescendo.

O que parecia improvável agora é realidade: o setor enfrenta um bull market que poucos anteciparam — e que vem deixando até operadores experientes desconfortáveis.

Segundo o consultor lácteo Wouter Reijntjes, o atual rali “quebra o manual” do mercado. A combinação de posicionamento financeiro extremo, liquidez limitada e fundamentos fragmentados está levando os preços a níveis fora dos cenários-base de muitos participantes.

O paradoxo que acendeu o rali

O dado mais contraintuitivo é que esse ciclo de alta ocorre enquanto a produção aumenta nas principais regiões exportadoras: cerca de 5% na União Europeia, 4% nos Estados Unidos e 2,5% na Nova Zelândia em termos anuais.

Longe de conter os preços, esse excedente pode ter criado o ambiente perfeito para o movimento atual.

A expectativa de ampla oferta levou muitos operadores a assumir posições vendidas, convencidos de que o mercado cairia. Mas essa aposta deixou o sistema vulnerável: quando os preços começaram a subir, traders foram obrigados a recomprar contratos para limitar perdas, acelerando o rali.

Em outras palavras, o mesmo excesso de leite que deveria pressionar o mercado pode ter sido o combustível da alta.

Leite em pó: um rali com fundamentos

Diferentemente de outros produtos, a escalada do leite em pó desnatado (SMP) apresenta sinais mais estruturais do que especulativos.

Os estoques estão mais baixos do que o esperado, a produção ficou limitada por vários meses e a reposição não acompanhou o ritmo das vendas. O que parecia uma disponibilidade confortável transformou-se silenciosamente em escassez.

Além disso, o mercado global está mais ajustado do que sugere uma leitura restrita à Europa. A menor produção de pó nos Estados Unidos e uma demanda estruturalmente maior por proteínas — impulsionada pela tendência de “proteína em tudo” — ajudaram a absorver excedentes.

Nos primeiros dias do mês, mais de 2.000 toneladas foram negociadas, com preços saltando de cerca de €2.150–€2.300 para aproximadamente €2.570 em negócios para o segundo trimestre.

Com liquidez limitada do lado vendedor, o mercado fica exposto a novas altas caso um grande comprador retorne.

Manteiga: o manual do short squeeze

O caso da manteiga é diferente e responde principalmente à dinâmica financeira.

O mercado estava fortemente vendido diante da expectativa de queda. Porém, a liquidez reduzida deixou pouco espaço para erros: à medida que as cotações subiram, stop losses foram acionados e vendedores tiveram de inverter posições, gerando compras forçadas.

O resultado foi um clássico short squeeze.

Mais de 1.000 toneladas foram negociadas nos primeiros quatro dias da semana, com preços passando de cerca de €4.240 para contratos do terceiro trimestre a níveis próximos de €4.850.

Embora parte da compra técnica possa ter ficado para trás, a combinação de vendedores cautelosos e demanda ainda descoberta mantém o risco de volatilidade no curto prazo.

Ainda assim, o equilíbrio pode mudar quando preços mais altos começarem a racionar o consumo e a oferta ganhar peso no balanço.

Queijo: a resiliência da demanda

O queijo conta outra história: a demanda simplesmente não recuou.

Apesar da cautela macroeconômica, os mercados de exportação seguem ativos e muitos compradores continuam operando com coberturas curtas, retornando ao mercado com frequência. Essa presença constante limita quedas e sustenta as cotações.

Analistas veem o queijo mais ligado ao complexo de gordura do que ao mercado de pós. Enquanto a manteiga permanecer firme, os preços do queijo tendem a encontrar suporte.

No entanto, se a gordura devolver parte dos ganhos recentes, o risco de baixa reaparecerá — provavelmente de forma mais gradual do que na manteiga.

Um mercado que pune certezas

A velocidade e a magnitude do movimento surpreenderam até participantes veteranos. Afirmar que esse comportamento estava totalmente previsto seria, no mínimo, uma reconstrução seletiva das próprias projeções.

Mas surpresa não significa perda de disciplina.

Embora posicionamento e liquidez tenham dominado o curto prazo, os fundamentos não desapareceram: os estoques continuam existindo, a produção seguirá fluindo e preços elevados tendem a atrair vendas enquanto moderam a demanda.

Quando as posições se normalizarem e os usuários industriais completarem suas coberturas, o mercado voltará a ser avaliado por critérios mais tradicionais.

Até lá, a mensagem é clara: ignorar este bull market já não é uma opção.

Porque, embora hoje os touros ditem o ritmo, no mercado lácteo — como sempre — os fundamentos continuam sendo os donos do relógio.

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