O Queijo Minas Artesanal produzido por Maria Abadia Caixeta e sua família, em Patos de Minas, no Alto Paranaíba (MG), é resultado de uma rotina intensa, decisões difíceis e uma relação direta com o consumidor que mudou o destino do negócio.
Na fazenda, o dia começa antes do sol nascer e termina apenas quando os últimos queijos estão prontos e as tarefas domésticas concluídas. De domingo a domingo, Maria Abadia mantém uma disciplina que atravessa gerações. Mãe de cinco filhos — quatro mulheres e um homem — ela construiu, ao lado do marido Armando Mendes, um empreendimento que nasceu da necessidade e se consolidou como referência regional.
No início, não havia estratégia sofisticada nem planejamento detalhado. A família precisava garantir renda e encontrou no leite uma possibilidade concreta. Donos de uma fazenda leiteira, começaram vendendo doces caseiros e queijos. Enquanto Maria Abadia se dividia entre a produção de doce de leite, coco, mamão e manga, além dos queijos e da casa, Armando e o filho Carlos Jair cuidavam do rebanho.
Com o passar do tempo e o avanço da idade, a produtora decidiu encerrar a fabricação de doces e concentrar esforços exclusivamente no queijo. A escolha foi pragmática. O volume de trabalho era alto e a especialização passou a ser vista como caminho para eficiência e sustentabilidade. Hoje, Maria Abadia, o marido e o filho trabalham juntos na produção, enquanto Carlos Jair e a irmã Iara Marques se dedicam à venda na Feira do Produtor Rural de Patos de Minas, nas manhãs de sábado.
Essa aproximação direta com o consumidor marcou um ponto de virada. Durante anos, a família produziu queijo sem obter lucro real, operando apenas para manter o rebanho. A entrada nas feiras locais mudou a lógica do negócio. Ao eliminar intermediários, o preço passou a refletir melhor o trabalho envolvido, trazendo estabilidade financeira.
Nem tudo foi simples. Maria Abadia reconhece que, no início, a falta de planejamento levou a investimentos desnecessários, que comprometeram o caixa e atrasaram o crescimento. A aprendizagem veio com o tempo, na prática, ajustando custos, volumes e expectativas. Hoje, a família controla todas as etapas do processo, do manejo do rebanho ao relacionamento com o cliente final.
O reconhecimento veio de forma silenciosa, mas consistente. Atualmente, boa parte do Queijo Minas Artesanal produzido precisa ser encomendada. Os que não estão reservados costumam se esgotar nas primeiras horas da feira. Não há campanhas nem promessas exageradas — apenas repetição de qualidade.
Segundo a produtora, a base está na disciplina desde o campo. O manejo do rebanho influencia diretamente os custos e a regularidade da produção. Manter o equilíbrio entre tradição e controle é o que permite que o negócio siga sustentável.
Embora siga um padrão artesanal, a família não trata o processo como algo imutável. A busca por novos conhecimentos e o respeito às boas práticas de produção fazem parte da rotina. O aprendizado contínuo é visto como ferramenta para preservar a tradição, não para descaracterizá-la.
Um dos elementos centrais dessa identidade está no pingo — o fermento lácteo natural típico do queijo artesanal mineiro. Coletado a partir do soro residual da produção anterior, o pingo é rico em bactérias benéficas e é responsável por conferir sabor, aroma e textura próprios ao queijo. Maria Abadia explica que é ali que o queijo “ganha alma”.
A qualidade do pingo produzido na fazenda é tamanha que a família também o fornece para outras propriedades queijeiras da região. É um reconhecimento informal, mas relevante, de que o saber-fazer vai além do produto final.
Outro ponto-chave é a padronização. Para a produtora, o consumidor precisa saber exatamente o que vai encontrar. Sabor e textura não podem variar de forma imprevisível. Essa consistência constrói confiança e explica por que muitos clientes voltam semana após semana.
Com foco, cuidado e determinação, a família segue trabalhando diariamente para garantir que um queijo de qualidade chegue à mesa do consumidor. Sem atalhos, o negócio prospera em Patos de Minas, sustentado por rotina, tradição e escolhas bem ajustadas ao longo do tempo.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Academia Assaí






