O recall de fórmula infantil anunciado pela Nestlé, com retirada de produtos em quase 60 países, voltou a colocar sob escrutínio as fragilidades das cadeias globais de fornecimento, os critérios de controle de qualidade de ingredientes e a responsabilidade final dos fabricantes em nutrição especializada.
A empresa informou que os lotes afetados — de marcas como SMA, Alfamino e Beba — foram recolhidos após a detecção de cereulida, uma toxina associada a náuseas e vômitos, em um ingrediente específico: o óleo ARA (ácido araquidônico) utilizado nas formulações. Segundo a Nestlé, todos os recalls já foram anunciados e não há registros de doenças relacionadas ao caso até o momento.
Apesar disso, a condução do processo gerou questionamentos públicos. A ONG Foodwatch International criticou a empresa por, em sua avaliação, não ter informado os consumidores com antecedência suficiente durante as fases iniciais do recall. Em resposta, o CEO da Nestlé, Philipp Navratil, afirmou que a companhia seguiu os protocolos regulatórios ao comunicar primeiro as autoridades sanitárias de cada país e anunciar os recalls de forma local e sequencial, conforme orientação oficial.
Na avaliação de um especialista do setor, que falou sob condição de anonimato para preservar relações comerciais, o episódio traz lições relevantes para fabricantes e fornecedores de ingredientes, mas não indica um risco iminente de desabastecimento global.
Segundo a fonte, a cadeia de fórmulas infantis é fortemente dependente do comércio internacional, especialmente para produtos de nicho e nutrição especializada. “Não temos fábricas em todos os países. Um problema em um único site pode impactar diversos mercados”, explicou. Ainda assim, o impacto em volume tende a ser limitado quando se trata de categorias amplamente disponíveis. A Nestlé declarou que os lotes recolhidos representaram menos de 0,5% das vendas anuais do grupo.
Comparações com a crise de abastecimento de fórmulas infantis nos EUA em 2022 surgiram naturalmente. Naquele episódio, restrições pandêmicas somadas ao fechamento de uma planta da Abbott Nutrition resultaram em escassez prolongada. Para o especialista, no entanto, os contextos são distintos. “O mercado americano é singular por conta do programa WIC, que cria forte dependência de poucos fornecedores. Aqui estamos falando de um evento restrito a uma empresa, sem os mesmos mecanismos de concentração”, afirmou.
Quando se trata da resolução de eventos de contaminação, os prazos variam amplamente. Identificar a origem do problema, avaliar a extensão do impacto e definir medidas corretivas depende do tipo de ingrediente e do processo envolvido. “Alguns casos são simples; outros exigem investigações longas, porque há muitas variáveis”, explicou a fonte.
O episódio também trouxe à tona o funcionamento dos sistemas de HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle). Ingredientes são classificados por nível de risco, o que define a frequência e a profundidade dos testes. No caso da Nestlé, o óleo ARA era considerado ingrediente de baixo risco, sujeito a controles rotineiros menos intensivos do que matérias-primas como leite cru. A contaminação foi detectada justamente em uma dessas verificações de rotina.
Para o especialista, a resposta natural do setor será revisar classificações de risco. “Após um incidente, o ingrediente passa a ser testado com mais rigor. Se nada ocorre por anos, o risco pode ser rebaixado novamente. É assim que o sistema evolui”, afirmou.
A substituição do óleo ARA, por sua vez, não é trivial. Em fórmulas infantis, cada componente atende a especificações nutricionais, funcionais e regulatórias extremamente precisas. “Não é possível trocar por qualquer alternativa. É necessário encontrar um ARA com especificações idênticas, desde segurança alimentar até desempenho na formulação”, explicou a fonte.
Quanto às responsabilidades, o consenso regulatório — especialmente na União Europeia — é claro: embora todos os elos da cadeia tenham deveres de controle, o fabricante que coloca o produto no mercado é o responsável final perante autoridades e consumidores. “É por isso que o endereço do fabricante está sempre no rótulo”, resumiu o especialista.
No balanço geral, o recall da Nestlé não aponta para uma crise sistêmica imediata, mas reforça a necessidade de mitigação de riscos, diversificação de fornecedores e transparência. Para um setor altamente regulado e sensível como o de nutrição infantil, o episódio funciona como alerta: até ingredientes considerados de baixo risco podem redefinir padrões de controle no futuro.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Reporter






