A cereulida, toxina bacteriana associada a episódios de intoxicação alimentar, está no centro de uma crise global no setor de alimentos infantis cujo ponto de origem, segundo investigações oficiais, remonta à China.
O episódio desencadeou um dos maiores recalls da história recente da Nestlé e se expandiu para outros grandes fabricantes europeus.
O alerta teve início com a retirada de fórmulas infantis das marcas Beba e Alfamino, da Nestlé, distribuídas em cerca de 70 países. Com o avanço das investigações, produtos de outras empresas também passaram a ser afetados, incluindo a fabricante suíça Hochdorf e os grupos franceses Danone e Lactalis.
De acordo com reportagens publicadas pelos jornais do grupo suíço Tamedia, a toxina foi identificada em um óleo utilizado como ingrediente em fórmulas infantis. Trata-se do óleo ARA (ácido araquidônico), produzido por um fornecedor chinês, a empresa Cabio Biotech. A informação foi confirmada aos jornais por uma porta-voz do Escritório Federal de Segurança Alimentar e Veterinária da Suíça (FSVO).
Segundo as autoridades, o óleo estava contaminado com cereulida, toxina produzida pela bactéria Bacillus cereus. A substância é conhecida por sua elevada resistência térmica, o que significa que não é eliminada por processos convencionais de aquecimento ou processamento industrial, tornando sua presença especialmente crítica em alimentos destinados a bebês.
A Nestlé afirmou que, até o momento, não há comprovação de um vínculo direto entre os produtos afetados e casos específicos de doença. A empresa destacou que o recall foi realizado de forma preventiva e solicitou que pais e responsáveis interrompam o uso dos lotes indicados e devolvam os produtos aos pontos de venda.
Na Suíça, o Escritório Federal de Saúde Pública (FOPH) informou não ter conhecimento de casos de enfermidade associados aos produtos retirados do mercado. No entanto, a autoridade esclareceu que doenças causadas por cereulida não estão sujeitas à notificação obrigatória no país, o que limita a capacidade de monitoramento epidemiológico.
Em outros mercados, porém, a situação é mais grave. Casos de doença já foram associados ao consumo dos alimentos infantis contaminados em diferentes países. Na França, autoridades investigam inclusive uma morte para determinar se existe relação com os produtos envolvidos no recall, segundo informações repercutidas pela imprensa europeia.
Um pediatra aposentado, citado pelos jornais suíços, explicou que a cereulida pode provocar sintomas como diarreia intensa e vômitos. Embora, na maioria dos casos, não seja considerada fatal, o risco assume outra dimensão quando envolve recém-nascidos e lactentes, grupo extremamente sensível a toxinas alimentares.
A expansão do recall para várias empresas evidencia o grau de interdependência das cadeias globais de suprimento de ingredientes nutricionais. Um único fornecedor de um insumo específico, utilizado por múltiplos fabricantes, foi suficiente para gerar impactos simultâneos em diferentes marcas, países e sistemas regulatórios.
As autoridades sanitárias seguem investigando como ocorreu a contaminação do óleo e em que ponto da cadeia produtiva a cereulida foi introduzida. O foco está nos protocolos de controle microbiológico, nos processos de auditoria de fornecedores e na rastreabilidade de ingredientes críticos utilizados na nutrição infantil.
O caso reacende o debate sobre a segurança de cadeias globais altamente concentradas e sobre os mecanismos de prevenção de riscos em produtos destinados a públicos vulneráveis. Enquanto as apurações continuam, fabricantes e reguladores mantêm o alerta máximo, reforçando orientações para que os produtos afetados não sejam consumidos.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Blue News






