O queijo cottage voltou ao centro da indústria láctea americana de uma forma que poucos imaginavam.
Impulsionado por vídeos virais nas redes sociais e pela busca crescente por alimentos ricos em proteína, o produto saiu de uma trajetória de declínio para se tornar um dos itens mais disputados do mercado. O resultado é uma combinação incomum de prateleiras vazias, estoques comprometidos e investimentos milionários em expansão de capacidade.
Os números ajudam a explicar a dimensão da mudança. As vendas de queijo cottage superaram US$ 2 bilhões em 2025, um crescimento de 82% em relação ao final de 2022. O movimento foi impulsionado principalmente pela popularização de receitas que utilizam o produto em sorvetes, smoothies, massas e outras preparações divulgadas por criadores de conteúdo digitais.
O que chama atenção não é apenas o crescimento da demanda, mas a velocidade com que ele ocorreu. Durante décadas, o queijo cottage perdeu espaço para outras categorias lácteas. A indústria direcionou parte de sua capacidade produtiva para produtos como iogurte, acompanhando a evolução do consumo. Quando o interesse pelo cottage voltou a crescer, os fabricantes encontraram uma estrutura produtiva desenhada para outra realidade de mercado.
A consequência foi imediata. Empresas passaram a enfrentar dificuldades para atender pedidos e, em alguns casos, precisaram racionar o fornecimento entre diferentes marcas e clientes. A Good Culture, uma das marcas mais associadas ao atual fenômeno de consumo, informou estar atendendo menos de 50% da demanda. A companhia registrou mais de US$ 200 milhões em vendas no varejo em 2024 após praticamente quadruplicar sua receita nos últimos três anos.
A resposta da indústria veio por meio de novos investimentos. A Upstate Niagara Cooperative colocou em marcha o maior projeto de sua história, com aporte de US$ 275 milhões para ampliar a produção de queijo cottage, iogurte grego e skyr. A expansão elevará sua capacidade de queijo cottage de 10 mil para 41 mil toneladas anuais.
A Westby Cooperative Creamery também decidiu acelerar sua expansão. A cooperativa investe US$ 14 milhões para modernizar suas instalações e ampliar a produção de 6 mil para 11 mil toneladas por ano. Mesmo assim, toda a capacidade disponível para os próximos três anos já foi comercializada, incluindo o volume adicional que será gerado após a conclusão do projeto.
O desafio não está apenas no investimento. A própria natureza do processo produtivo limita a velocidade de resposta. Na Westby, a fermentação do queijo cottage leva atualmente 16 horas. As melhorias em andamento devem reduzir esse tempo para oito horas, mas ainda assim o ciclo produtivo permanece relativamente longo.
A pressão sobre a cadeia não se restringe ao queijo cottage. O mercado de whey protein enfrenta um cenário semelhante. Com fabricantes adicionando proteína a um número crescente de produtos, a oferta se tornou mais apertada. Os preços do concentrado 80 de whey registraram alta de 80%, enquanto o isolado avançou 50%.
O caso do queijo cottage mostra como mudanças de comportamento podem alterar rapidamente o equilíbrio de um mercado inteiro. Uma tendência que nasceu em vídeos curtos foi capaz de transformar um produto considerado ultrapassado em um motor de investimentos industriais.
Para a cadeia láctea, a principal lição talvez esteja menos no produto em si e mais na velocidade da transformação. Hoje, uma mudança de hábito pode ganhar escala em poucos meses. A expansão da capacidade produtiva, porém, continua exigindo anos de planejamento, execução e capital.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por O Globo e Space Money






