O queijo da Serra da Mantiqueira nasceu de uma paisagem que impõe suas próprias regras.
A 1.600 metros de altitude, entre montanhas e vales verdejantes de Minas Gerais, o clima ameno e o relevo montanhoso recriaram, sem intenção, um pedaço da Itália. Foi ali que os primeiros imigrantes italianos encontraram condições semelhantes às de sua terra natal e começaram a moldar, com o tempo, um produto que hoje carrega identidade própria: o queijo de massa cozida que une dez municípios da região sob o mesmo método de fabricação.
Esse território produtor reúne atualmente 180 agroindústrias familiares, responsáveis por uma produção anual que já se aproxima das mil toneladas. Por trás desse número há histórias que explicam por que o queijo ali é mais do que um alimento — é um vínculo com a terra.
Uma dessas histórias é a de Henrique Lamim, criado no município de Virgínia. Aos 13 anos, ele deixou o campo com os pais rumo à área urbana, em busca de melhores oportunidades. A ligação com as origens, no entanto, nunca se rompeu de fato. Vinte e quatro anos depois, já aos 37, decidiu voltar. Ao lado da esposa, construiu um projeto de vida assentado na produção leiteira e na fabricação de queijo, buscando algo simples e ao mesmo tempo difícil: viver exclusivamente disso.
“O propósito era conseguir viver exclusivamente do queijo, e deu certo. Hoje, nós comercializamos nossos produtos com dignidade e muito orgulho. Para mim, é uma satisfação imensa quando um consumidor lá do Nordeste, de Brasília ou de Porto Alegre envia uma foto consumindo o nosso produto. É a realização de um sonho que meu pai não conseguiu concretizar”, conta Henrique.
Se a tradição sustenta a identidade do queijo da Serra da Mantiqueira, a técnica é o que garante sua diversidade. No Rancho Maranata, tudo começa na escolha do rebanho: vacas da raça Jersey, animais de menor porte e temperamento dócil, conhecidas por produzir um leite com maior teor de gordura e sólidos proteicos — matéria-prima considerada ideal para a fabricação de queijo.
A partir de uma mesma matriz de massa cozida, a propriedade desenvolve quatro perfis de maturação que transformam sabor, textura e aroma de cada peça. O Maranata Jovem é comercializado com 30 dias de cura. O Capa Preta passa por maturação intermediária de 60 dias. O Maranata Bronze estende o processo a 100 dias. E o Maranata Ouro representa o ápice: nove meses, ou 270 dias, de maturação em ambiente controlado.
Esse conhecimento acumulado por gerações não ficou apenas na tradição oral. O processo de fabricação do queijo da região foi oficialmente caracterizado e a receita do Mantiqueira de Minas foi patenteada, garantindo aos produtores locais proteção jurídica, denominação de origem e propriedade intelectual sobre um saber que atravessou o oceano com os imigrantes italianos e se reinventou nas montanhas mineiras.
Enquanto novas agroindústrias continuam a se instalar pelas estradas da Serra, o queijo artesanal segue conquistando paladares em todo o país — carregando, em cada peça, a história de quem decidiu não deixar essa tradição se perder.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Tarobá






