O El Niño já é uma realidade e acende um sinal de atenção para a pecuária, especialmente pela possibilidade de temperaturas acima da média e chuvas irregulares.
O cenário exige planejamento dos produtores para enfrentar possíveis impactos sobre pastagens, abastecimento de água, alimentação dos rebanhos e desempenho produtivo.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima mais de 60% de probabilidade de um El Niño de forte intensidade entre novembro deste ano e janeiro de 2027. No Espírito Santo, as previsões apontam maior irregularidade das chuvas, principalmente nas regiões norte e noroeste do estado, áreas onde os efeitos da seca costumam ser mais severos.
Entre os primeiros reflexos esperados está a redução da produção e da qualidade das pastagens. Segundo o zootecnista e extensionista do Incaper em Pedro Canário, Xisto Antônio Alves França, a menor disponibilidade de água no solo, combinada com temperaturas mais elevadas, limita o crescimento das forrageiras e reduz a oferta de alimento para os animais.
Esse cenário pode obrigar muitos produtores a ampliar o uso de suplementação com cana-de-açúcar, capineiras, silagem e alimentos concentrados para atender às exigências nutricionais do rebanho, elevando os custos de produção e reduzindo a rentabilidade das propriedades que dependem do pastejo.
Os impactos também chegam diretamente ao desempenho dos animais. A menor disponibilidade de forragem, somada ao estresse térmico, reduz o consumo de alimento. Nas vacas leiteiras, isso pode provocar queda na produção de leite e perda de condição corporal. Já na pecuária de corte, a tendência é de menor ganho de peso, prolongando o período necessário para atingir o peso de abate.
Outro ponto de preocupação é a reprodução. As altas temperaturas podem reduzir a manifestação de cio, diminuir as taxas de concepção e aumentar as perdas embrionárias, comprometendo a eficiência reprodutiva tanto dos rebanhos leiteiros quanto dos de corte.
Além disso, os animais passam a gastar mais energia para manter a temperatura corporal, restando menos energia disponível para produção, crescimento e reprodução. Segundo o especialista, os efeitos econômicos desse conjunto de fatores podem permanecer por vários meses, mesmo após a normalização das condições climáticas.
Diante desse cenário, o planejamento antecipado aparece como a principal estratégia para reduzir prejuízos. A recomendação é avaliar os estoques de volumosos, planejar a produção ou aquisição de alimentos para o período seco, adotar práticas de conservação do solo e da água, realizar manejo adequado das pastagens e garantir sombra e água de qualidade aos animais. O monitoramento contínuo das condições climáticas e da disponibilidade hídrica da propriedade também faz parte das orientações.
Na prática, muitos produtores já começam a se preparar. A pecuarista Valeska Sperandio, do Sítio Córrego Olho D’Água, em Baunilha, interior de Colatina, mantém cerca de 30 vacas em lactação, com produção diária aproximada de 500 litros de leite. Todos os anos ela compra silagem para enfrentar o período de menor oferta de pastagem e, desta vez, já considera adquirir um volume adicional caso a seca se prolongue.
O trabalho de preparação também envolve ações de apoio aos produtores. Desde 2023, a Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) intensificou as orientações sobre a formação de reservas de alimentos para os períodos de estiagem. Após a previsão do El Niño, esse trabalho ganhou reforço.
Como parte dessa iniciativa, foram adquiridas e distribuídas 140 ensacadoras de forragem, atendendo 50 municípios por meio de associações, cooperativas e prefeituras, com alcance estimado de cerca de 5 mil pecuaristas.
Em paralelo, o Incaper ampliou as orientações para incentivar o cultivo de milho, sorgo, cana-de-açúcar e capim-elefante, culturas destinadas à produção de silagem e que podem ser manejadas também por pequenos produtores sem trator. As ações incluem ainda capacitação para produção de silagem de qualidade, abordando o momento correto da colheita, o processo de ensilagem e o armazenamento adequado para reduzir perdas nutricionais e desperdícios.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Conexão Safra






