O Grupo Gloria, conglomerado peruano que assumiu o controle da Molfino Hermanos há menos de um ano, deu início à reorganização societária da histórica láctea argentina. A mudança foi formalizada como uma fusão por absorção e representa o primeiro passo estrutural para integrar o negócio à canadense Saputo e à estratégia regional do grupo.
De acordo com a publicação feita nesta terça-feira, 22 de julho, no Boletim Oficial da Nación, a Molfino Hermanos S.A. absorverá duas sociedades ligadas à operação de compra: a Molti S.R.L. e a Project Gold S.A.U. Ambas deixarão de existir como pessoas jurídicas independentes, e todo o patrimônio das duas passará a integrar a empresa láctea.
A decisão foi aprovada em 26 de junho e terá efeitos contábeis a partir de 1º de julho de 2026, com base em balanços especiais fechados em 31 de março. Nessa data, a Molfino Hermanos registrava ativos de quase 630 bilhões de pesos e passivos de cerca de 164,7 bilhões de pesos.
A Molti S.R.L. somava ativos superiores a 116 bilhões de pesos, enquanto a Project Gold S.A.U. — criada especificamente como veículo para viabilizar a aquisição — contribuía com um patrimônio bem menor.
Como consequência direta da reorganização, o capital social da Molfino será reduzido em mais de 15,2 bilhões de pesos, passando de 44,419 bilhões para 29,211 bilhões de pesos.
À primeira vista, o número poderia sugerir um enxugamento do negócio, mas esse tipo de ajuste é comum em processos de fusão entre empresas do mesmo grupo, quando o objetivo é cancelar participações cruzadas e adequar o capital à nova estrutura corporativa — sem impacto na capacidade operacional da companhia.
A operação também deixa clara a atual composição acionária da Molfino: a Litrex S.A. concentra cerca de 80% do capital, enquanto a Saputo Foods Limited mantém aproximadamente 20% como sócia minoritária. O controle e as decisões estratégicas ficaram definitivamente nas mãos do grupo peruano.
Para o mercado, a fusão não altera, por ora, a produção, as marcas comerciais nem o relacionamento da empresa com fornecedores e clientes.
Ainda assim, o movimento é lido como um sinal claro do caminho que o novo controlador pretende seguir: primeiro ordenar a estrutura jurídica e patrimonial, para depois avançar em processos de integração financeira, comercial e logística — e eventualmente redefinir planos de investimento voltados a produtividade e exportação.
A compra da Molfino pelo Grupo Gloria foi uma das operações mais relevantes da indústria alimentícia regional nos últimos anos. Com ela, o conglomerado peruano — fundado há mais de oito décadas e controlado pela família Rodríguez Rodríguez — incorporou plantas industriais, centros de distribuição e uma extensa rede de produtores leiteiros, além de marcas com décadas de reconhecimento entre os consumidores argentinos.
Além do setor lácteo, o Grupo Gloria também atua em cimento, açúcar, papel, embalagens, agroindústria e transporte, com operações em diversos países da região.
A Argentina, segundo a lógica que orientou a aquisição, oferece ao grupo peruano vantagens difíceis de replicar em outros mercados da região: disponibilidade de matéria-prima, tradição exportadora e capacidade de abastecer tanto o consumo interno quanto destinos na América Latina, África e Ásia.
O movimento acontece em um momento em que a indústria láctea argentina começa a deixar para trás a forte contração registrada entre 2024 e 2025. Embora a recuperação do consumo ainda seja desigual, as empresas do setor voltaram a priorizar eficiência, rentabilidade e fortalecimento das exportações.
Nesse cenário, a chegada de um novo player regional com poder financeiro relevante adiciona um elemento de competição a um mercado que já reúne companhias como Mastellone Hnos. (La Serenísima), Savencia, Adecoagro, Verónica, Punta del Agua, Milkaut e Ilolay.
Por ora, a fusão societária divulgada não muda o que o consumidor vê nas prateleiras. Mas, para quem acompanha de perto o setor, ela marca o início formal de uma nova etapa na história da Molfino — desta vez, sob condução peruana.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por iP






