Custo do leite cai no Rio Grande do Sul, mas alívio chega desigual ao produtor.
O custo de produzir leite no Rio Grande do Sul teve uma queda em junho que pegou o próprio setor de surpresa. O Índice de Insumos para Produção de Leite Cru (ILC), calculado pela Assessoria Econômica da Farsul, registrou deflação mensal de 0,48% — um resultado oposto ao que se projetava, já que a expectativa era de alta puxada pela valorização de itens como milho, soja, sal mineral e energia elétrica.
O índice, divulgado nesta quarta-feira, 29, mede a variação de preços da cesta de insumos que responde por 80% do custo de produção do leite.
A explicação para essa reviravolta está em dois movimentos que aconteceram fora do Brasil. No mercado internacional de fertilizantes, a China retomou no final de maio suas exportações de ureia, suspensas anteriormente para proteger o abastecimento interno do país.
A volta de aproximadamente 1,5 milhão de toneladas adicionais ao mercado global recompôs rapidamente a oferta e provocou uma das correções de preço mais intensas dos últimos anos: um recuo de cerca de 40% nas cotações internacionais em relação ao pico recente.
O segundo fator veio da geopolítica. O arrefecimento das tensões no Oriente Médio e o destravamento logístico no Estreito de Ormuz derrubaram em torno de 23% as cotações internacionais do petróleo, o que se refletiu diretamente na redução dos preços dos combustíveis e aliviou a cadeia logística da pecuária leiteira gaúcha.
Até aqui, a notícia parece boa para quem vive da produção de leite. Mas a própria Assessoria da Farsul faz uma ressalva importante: apesar da magnitude do ajuste externo, o efeito prático sobre a porteira das propriedades é heterogêneo.
Diante das incertezas prolongadas no cenário internacional e do risco de novas interrupções de oferta, grande parte dos produtores já havia feito compras antecipadas de insumos, travando preços mais altos. Na prática, isso significa que o alívio das cotações globais chega de forma limitada a uma parcela expressiva da atividade — quem comprou antes, não sentirá o desconto.
E o horizonte para os próximos meses não é de continuidade da queda. Para julho, a projeção da Farsul é de retomada da inflação do ILC, sustentada principalmente pela alta nos preços dos grãos, milho e soja.
Nos combustíveis a tendência é de estabilidade, enquanto nos fertilizantes o impacto da retomada das exportações chinesas de ureia já foi incorporado aos preços internacionais, o que reduz a probabilidade de novas correções expressivas como a de junho. No acumulado de 12 meses, o IPCA de Leite e Derivados já registra alta de 10,06%, refletindo essa dinâmica distinta entre os custos de produção e a recomposição de preços ao longo da cadeia.
Do outro lado da conta, o valor pago ao produtor também se movimenta. O Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do Rio Grande do Sul (Conseleite/RS) divulgou na terça-feira, 28, o valor de referência do leite para julho: R$ 2,5005 por litro, uma alta de 2,98% em relação à referência projetada para junho, de R$ 2,4281 — um acréscimo de R$ 0,0724 por litro.
O mesmo Conselho também confirmou o valor consolidado de junho, em R$ 2,4320 por litro.
Juntando as duas pontas, o mês de junho fechou com um raro alinhamento a favor da margem do produtor gaúcho: insumos mais baratos e leite mais valorizado. Mas, como mostra o próprio comportamento do ILC, esse alívio não é uniforme nem garantido — depende de quando cada produtor comprou seus insumos, e a inflação de custos já dá sinais de que pode voltar já em julho.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Rádio Mundial






