O Brasil está entre os cinco maiores produtores de leite do mundo, com uma produção anual de aproximadamente 36 a 37 bilhões de litros.
Mesmo assim, o país importa diariamente milhões de litros equivalentes em leite, principalmente da Argentina e do Uruguai, enquanto suas exportações permanecem muito pequenas. O paradoxo é explicado por Jônadan Ma, presidente da Comissão Nacional de Leite da CNA e presidente da Comissão Técnica de Pecuária de Leite da Faemg, em entrevista a Leonardo Bortoletto no Itatiaia Negócios Cast.
Segundo Ma, a raiz do problema está na estrutura de custos da produção nacional. O Brasil tem um dos maiores custos de produção entre os grandes players mundiais — o chamado Custo Brasil —, o que reduz a competitividade do setor. E o produtor não tem como repassar esse custo: ele é um tomador de preços, diz Ma, que melhora produtividade, qualidade e eficiência, mas não define quanto vai receber pelo litro de leite.
O cenário se agrava, na visão da CNA, por uma concorrência que o setor considera desleal. Ma afirma que existe prática de dumping no leite importado, que chega ao Brasil com preços inferiores aos praticados nos próprios países de origem. O governo já reconheceu a existência dessa prática, segundo ele, e o setor defende medidas que restabeleçam condições iguais de competição. Sem essas medidas, alerta, o Brasil corre o risco de aumentar sua dependência do produto importado — e, com isso, sua vulnerabilidade.
Essa mesma cadeia longa entre produtor e consumidor explica outro incômodo do dia a dia: por que o leite continua caro para quem compra, mesmo com produtores operando com margens apertadas. Tanto o produtor quanto o consumidor são tomadores de preço, diz Ma; entre os dois, existem etapas da cadeia que concentram parte significativa das margens.
Apesar do cenário desafiador, Ma destaca uma transformação profunda na forma de produzir. Em mais de 40 anos de atuação no setor — ele começou a se aproximar da pecuária leiteira em 1981, seguindo um caminho iniciado pelo pai, imigrante chinês que passou a atuar na agricultura brasileira na década de 1960 —, viu o Brasil evoluir em tecnologia, produtividade e profissionalização até se tornar um dos maiores produtores de leite do planeta. Hoje, resume, não se tira mais leite: produz-se leite, com mais eficiência, menos animais, melhor qualidade e menor impacto ambiental.
Essa evolução tecnológica caminha junto com uma mudança de mentalidade que Ma considera essencial: a gestão como centro do negócio. Não basta trabalhar por paixão ou tradição, afirma — é preciso controlar custos, planejar e administrar a propriedade como uma empresa, ainda que a atividade continue exigindo dedicação de 24 horas por dia, sete dias por semana, o ano inteiro.
Questionado sobre o futuro, Ma projeta um produtor cada vez mais preparado daqui a vinte anos, apoiado em tecnologia, gestão e inovação — desde que existam condições para que os jovens permaneçam no campo e deem continuidade às propriedades familiares. Para lidar com fatores fora de seu controle, como clima, câmbio e mercado, ele aposta em gestão de risco, planejamento e informação: quanto maior a profissionalização, maior a capacidade do produtor de enfrentar essas oscilações.
Entre as prioridades para fortalecer o setor, Ma cita três frentes: melhorar o poder de negociação dos produtores, ampliar a capacitação e facilitar o acesso ao crédito e às tecnologias.
Em respostas rápidas durante a entrevista, Ma indicou que a prioridade do momento ainda é volume de produção, embora a qualidade deva ganhar peso no futuro; que a tradição importa, mas a tecnologia será decisiva; e que o mercado interno segue como aposta principal, já que o Brasil ainda tem muito espaço para crescer atendendo sua própria população antes de mirar exportação.
À pergunta de Antônio de Salvo, presidente do Sistema Faemg Senar, sobre qual atividade seguirá em expansão em Minas Gerais, Ma respondeu sem hesitar: a pecuária leiteira. Para ele, o leite faz parte da identidade mineira, e o estado reúne tradição, tecnologia e condições para permanecer como o maior produtor de leite do Brasil.
Ao encerrar a conversa, deixou um conselho para quem pensa em investir no agronegócio: enxergar a atividade como um grande negócio, investindo em gestão, tecnologia, informação e planejamento — caminho que, segundo ele, abre oportunidades de crescimento em um setor essencial para alimentar uma população cada vez maior.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Rádio Itatiaia






