ESPMEXENGBRAIND
7 ago 2026
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📈 Enquanto compradores recuam, outra proteína animal aproveita a brecha para crescer no prato dos brasileiros.
O soro do leite virou disputa bilionária — e nem todo mundo está pronto para pagar a conta.
O soro do leite virou disputa bilionária — e nem todo mundo está pronto para pagar a conta.

O preço do whey protein no mercado internacional quase triplicou em pouco mais de um ano, e a raiz do problema está na própria cadeia do leite.

O ingrediente é um subproduto do queijo — o soro que sobra depois da coalhada —, e sua oferta depende diretamente da produção de leite e queijo. O consumo de whey, porém, cresceu num ritmo que a produção de queijo e leite não acompanhou. Como não existe soro sem queijo, ampliar a oferta de whey significaria produzir mais queijo do que o mercado consegue absorver a preços atrativos.

Com a oferta represada e a demanda turbinada pelo boom das canetas emagrecedoras à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, o preço fez o resto: o concentrado de whey protein 80%, o aditivo mais usado pela indústria, passou de US$ 13 por libra (453,5 gramas) nos Estados Unidos, quase o triplo do valor de um ano antes, segundo a consultoria Vesper. O whey isolado, versão mais concentrada, subiu cerca de 50% no mesmo período.

Daren Bradshaw, diretor de operações da americana Legendary Foods, resumiu ao The Wall Street Journal a sensação de quem acompanha o setor: nunca havia visto um movimento de alta tão agressivo e sem previsão clara de acomodação.

A empresa se prepara para reajustar preços pela segunda vez em dois anos. Nos Estados Unidos, a indústria de laticínios já reagiu com um plano de investimento de US$ 11 bilhões até 2028 para ampliar a produção — mas o efeito prático dessa expansão só deve aparecer depois desse prazo, o que mantém o aperto no curto prazo.

No Brasil, a volatilidade da matéria-prima já mexeu com o tabuleiro de negócios do setor de suplementos. A Growth, apontada como a maior fabricante de suplementos do país, teve seu processo de venda paralisado. A Merama, holding latino-americana de marcas de consumo, havia contratado o Goldman Sachs em agosto do ano passado para vender a empresa, com pedida inicial de R$ 4 bilhões — negociação hoje em compasso de espera.

O Grupo Supley, dono das marcas Max Titanium, Probiótica e Dr. Peanut, vive situação parecida: contratou o Itaú BBA em 2024 para estudar alternativas de captação, incluindo um IPO, mas não fechou nenhum negócio até agora.

Nem todo movimento de M&A travou, porém. As transações que avançaram foram as que miraram marca e distribuição, não escala de produção industrial — o que reduz a exposição direta à montanha-russa do preço do whey.

Foi o caso da aquisição de uma fatia da fabricante de suplementos Dux pelo fundo XP Private Equity II, da XP Asset, por R$ 250 milhões no ano passado, antes de a crise do whey se agravar, e da compra da Bold, fabricante de barrinhas de proteína, pelo Grupo Ferrero, dono da Nutella, em março.

A Danone escolheu outro caminho: em vez de comprar, está ampliando a própria capacidade produtiva ligada ao leite. A companhia vem investindo na expansão das fábricas de Poços de Caldas, em Minas Gerais, para atender à demanda por proteína.

Segundo o CEO da operação local, Tiago Santos, em declaração à Folha de S.Paulo, a meta é que as vendas no Brasil cresçam em ritmo mais acelerado que as da matriz. O YoPRO, bebida láctea que combina whey protein e caseína, já é o segundo produto mais vendido da Danone no país — atrás apenas do iogurte tradicional da marca e à frente de Activia e Danoninho.

O tamanho do mercado ajuda a entender por que ninguém quer ficar de fora. Segundo a Brasnutri, com base em dados da Euromonitor, o setor de suplementos alimentares movimentou cerca de R$ 7,6 bilhões no Brasil em 2025, alta de 15% sobre o ano anterior, com projeção de chegar a R$ 13,8 bilhões até 2030. O país já é o quinto maior mercado mundial de suplementos esportivos, o quarto em whey protein e o terceiro em creatina.

É nesse cenário de proteína láctea mais cara que outra cadeia produtiva enxerga oportunidade: a frigorífica. Com o whey protein mais caro, o colágeno — subproduto do couro e do abate bovino que até pouco tempo era simplesmente descartado, numa trajetória parecida com a do próprio soro do leite — ganha espaço como alternativa proteica.

A JBS criou a Genu-in em 2022, dentro de um plano de R$ 400 milhões, e já opera perto do limite de capacidade em sua fábrica de colágeno em Presidente Epitácio, no interior de São Paulo, a ponto de preparar uma nova expansão. A MBRF, dona de Sadia e Perdigão, pagou R$ 312,5 milhões pela compra de 50% da Gelprime, fabricante com planta em Londrina, no Paraná, e vai investir outros R$ 187,5 milhões para ampliar a linha de produção, com a meta de dobrar a capacidade da fábrica até 2030 e se tornar o maior complexo de colágeno e gelatina do mundo.

O motivo é simples: peptídeos de colágeno rendem margens próximas de 30%, contra apenas um dígito no negócio tradicional de proteína animal — um contraste que ajuda a explicar por que o setor frigorífico está disposto a investir tão pesado justamente agora, enquanto a cadeia do leite lida com o gargalo do whey.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Invest News

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