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11 ago 2026
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🌵 A seca chegou onde menos se esperava: no coração da produção leiteira de Sergipe. Veja os números por trás da crise.
leite
Meteorologista Wanda Tathyana fala sobre os efeitos do El Niño, que já está instalado. Foto: Ascom/Semac

Poço Redondo não é um município leiteiro qualquer. Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2024, do IBGE, a cidade produziu 121 milhões de litros de leite naquele ano, movimentando R$ 283,5 milhões e figurando entre os 20 maiores produtores de leite do Brasil.

Junto com Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória, soma 316 milhões de litros — quase metade dos 678,5 milhões produzidos em todo o estado de Sergipe em 2024.

A produtividade explica parte desse peso. Dados da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), vinculada à Seagri, mostram média de 3.960 litros por vaca por ano no município, contra 2.336 litros na média estadual e apenas 1.343 litros na média nacional. Poço Redondo produz quase três vezes mais leite por vaca do que a média do país.

É esse polo que agora enfrenta o avanço do El Niño. Em Santa Rosa do Ermírio, povoado que concentra boa parte dessa produção, o leite é a principal fonte de renda de 90% das famílias e o plantel local está entre 20 mil e 25 mil vacas.

O povoado, isoladamente, produz cerca de 250 mil litros de leite por dia, enquanto o município como um todo ultrapassa 300 mil litros diários — volume que abastece empresas como Piracanjuba, Nativille, Ouro Bom e Natulact.

O problema começou na lavoura. Segundo levantamento da reportagem junto ao setor produtivo, a quebra na produção de milho na região chegou a aproximadamente 90%, comprometendo diretamente a fabricação de silagem usada na alimentação do gado. “O gargalo que teve foi esse El Niño. Nós não tiramos lavoura para fazer silagem para o gado.

A silagem é muito pouca”, resume Odair José de Oliveira, presidente da Associação Amigos do Leite de Santa Rosa do Ermírio. Em algumas áreas, segundo ele, o milho sequer conseguiu se desenvolver.

Sem produção própria, os criadores passaram a comprar silagem em outras cidades — principalmente em Carira, também em Sergipe, e em Pedro Alexandre, na Bahia —, pagando entre R$ 350 e R$ 400 por tonelada. Como as compras são feitas individualmente, os produtores têm dificuldade para negociar grandes volumes.

O estoque que ainda resta nas propriedades, segundo Odair, deve durar apenas até outubro. “Aí depois é onde a gente vai ter que se virar para salvar os animais e salvar a produção regional também”, afirma. Ele estima que a produção de leite da região pode cair até 20%, a depender da intensidade e da duração dos efeitos do fenômeno climático.

A água segue o mesmo caminho do milho. Desde abril, produtores da região vêm comprando água transportada do Rio São Francisco, a um custo aproximado de R$ 450 por carrada. Em uma das propriedades da região, essa despesa já soma cerca de R$ 100 mil por mês.

Diante do cenário, os criadores levaram duas reivindicações ao secretário de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca, Zeca Ramos da Silva: uma linha de crédito pelo banco estadual Banese, com juros baixos e prazo de dois anos para financiar ração e alimentação animal, e a limpeza das aguadas — reservatórios usados pelos criadores para armazenar água.

“Precisamos de uma linha de crédito para ração, com juros baixos e prazo de dois anos para salvar os animais da região”, diz Odair. Segundo ele, o secretário se comprometeu a providenciar a limpeza de aproximadamente 400 aguadas na região e a avaliar formas de apoiar a compra de silagem.

Enquanto isso, o poder público tenta antecipar soluções estruturais. Poço Redondo, e especialmente Santa Rosa do Ermírio, é o principal beneficiado pelo projeto da Adutora do Leite, que preverá a captação de água bruta do Rio São Francisco para abastecer criadores de cinco municípios do Alto Sertão — mas a obra ainda está na fase de estudos e projetos.

Como medida emergencial, a Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação de Sergipe (Coderse) informa que, desde o início de 2025, já foram preparadas 103 aguadas em Poço Redondo, sendo sete delas de médio porte.

No campo meteorológico, a explicação para a crise já está confirmada. Segundo a meteorologista Wanda Tathyana de Castro Silva, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas (Semac), as chuvas já estavam abaixo da média durante a transição para o El Niño, e o fenômeno “já está instalado” no estado.

Em maio, por exemplo, eram esperados entre 300 e 350 milímetros de chuva na região, mas choveu apenas cerca de 180 milímetros.

Há, ainda assim, uma margem de alívio possível: segundo Wanda, se as águas do Atlântico Sul, a leste do Nordeste, permanecerem aquecidas, isso pode favorecer a formação de sistemas meteorológicos e contribuir para chuvas no estado, minimizando parcialmente os efeitos do El Niño sobre a safra e, consequentemente, sobre a cadeia leiteira sergipana.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Movimento Econômico

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