A produção de leite em Santa Catarina atravessa uma transformação que combina dois movimentos aparentemente contraditórios:
Enquanto o número de produtores diminuiu fortemente ao longo da última década, o Estado ampliou sua produção e alcançou níveis mais altos de produtividade.
É justamente nesse descompasso que se concentra uma das principais discussões atuais da cadeia. De um lado, propriedades deixaram a atividade, sobretudo entre os pequenos produtores. De outro, os estabelecimentos que permanecem produziram volumes maiores e com maior eficiência.
Segundo Zito Fernando Lunardi, presidente da recém-criada União Catarinense dos Produtores de Leite (UCPL), cerca de 60% dos produtores de leite teriam deixado a atividade nos últimos dez anos.
“Cada produtor de leite que sai da atividade não retorna mais.”
A frase sintetiza a preocupação que levou produtores de diferentes regiões catarinenses a criar uma entidade estadual para representar o setor.
A atividade mudou de escala
Os dados apresentados no material de origem mostram que a redução do número de produtores não significou uma queda da produção estadual.
Em 2024, Santa Catarina produziu 3,3 bilhões de litros de leite, 3% mais do que em 2023. O Estado ocupou a quarta posição entre os maiores produtores brasileiros.
A captação também avançou. De acordo com dados da Epagri/Cepa, chegou a 3,5 bilhões de litros em 2025, crescimento de 6,4%.
Ao mesmo tempo, a produtividade média alcançou 15,9 litros por vaca por dia, a maior do país, com aumento de 47% em dez anos.
O número de vacas ordenhadas, porém, caiu 27% entre 2015 e 2024.
O conjunto dos números desenha uma mudança estrutural: a atividade catarinense passou a produzir mais com menos animais e uma estrutura produtiva menor.
Para os produtores reunidos na UCPL, entretanto, esse processo tem um custo que não aparece apenas nas estatísticas de produção: propriedades estão deixando de produzir leite.
O ponto de pressão está na rentabilidade
A entidade aponta uma combinação de custos elevados, dificuldades de remuneração e concorrência com produtos importados como fatores que pressionam principalmente as propriedades menores.
Lunardi cita a entrada de leite proveniente da Argentina e do Uruguai como uma das principais preocupações.
Segundo o presidente da UCPL, os produtos importados chegam em condições que dificultam a comercialização do leite produzido no Brasil e pressionam a remuneração dos produtores.
A questão passou, por isso, a ocupar lugar central na agenda da nova organização, que pretende acompanhar medidas antidumping relacionadas ao leite em pó e cobrar ações do poder público.
Mas a reivindicação dos produtores não se limita às importações.
A UCPL defende uma discussão envolvendo diferentes elos da cadeia, incluindo indústria, varejo e órgãos ligados à comercialização. A intenção declarada é construir políticas de longo prazo para a atividade.
Um mercado com déficit externo
Os dados mais recentes apresentados pela Epagri/Cepa ajudam a dimensionar a presença dos produtos lácteos importados no mercado catarinense.
Em março de 2026, Santa Catarina exportou 75,5 toneladas de produtos lácteos, enquanto importou 639 toneladas.
O resultado foi um déficit comercial de aproximadamente 563 toneladas no mês. Ainda assim, o déficit foi cerca de 40% menor do que o registrado em março de 2025.
Para a UCPL, esses números reforçam a necessidade de discutir as condições de concorrência entre a produção catarinense e os produtos que chegam de outros países.
A resposta veio do próprio setor
A criação da União Catarinense dos Produtores de Leite representa uma tentativa de transformar uma preocupação dispersa em uma agenda comum.
A assembleia que formalizou a entidade reuniu cerca de 30 lideranças, entre produtores e representantes de dez associações de municípios. Participaram representantes do Extremo-Oeste, Oeste, Meio-Oeste, Sul, Vale do Itajaí e Grande Florianópolis.
A estruturação jurídica contou com o suporte da Associação dos Municípios do Oeste de Santa Catarina (AMOSC).
A organização foi criada como entidade política apartidária e pretende representar produtores de diferentes portes.
Na avaliação de seus integrantes, ampliar a participação dos produtores nas discussões sobre importações, exportações, preços e políticas públicas é uma etapa necessária para enfrentar a transformação pela qual passa a atividade.
O Oeste coloca o tema em escala estadual
O peso do Oeste catarinense na mobilização não é casual. A região é apontada no próprio setor como uma das principais áreas produtoras de leite do Estado.
Valmor Scolari, presidente da AMOSC e prefeito de Chapecó, destacou a necessidade de transformar a mobilização regional em uma pauta estadual.
“O Oeste de Santa Catarina é a maior bacia leiteira de Santa Catarina. Por isso, a importância da união dos produtores.”
A nova entidade pretende agora atuar junto aos órgãos municipais, estaduais e federais, acompanhando o mercado e defendendo mudanças na cadeia produtiva da bovinocultura leiteira.
A questão central, entretanto, permanece colocada pelos próprios números: Santa Catarina conseguiu aumentar a produção e a produtividade enquanto reduziu significativamente o número de produtores.
A UCPL surge justamente em um momento em que o setor precisa decidir como lidar com essa transformação — e, sobretudo, com o risco apontado por seus representantes de que aqueles que deixam a atividade não voltem mais.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por nd+






