O Evento 411 da Global Dairy Trade (GDT), realizado em 1º de setembro de 2026, trouxe um resultado que reforça uma tendência que já vinha se desenhando nos últimos leilões:
A demanda por proteína láctea segue firme, mesmo diante de uma oferta maior de produto disponível. O Índice de Preços GDT fechou o evento com alta de 0,9%, com preço médio de US$ 3.910 por tonelada métrica (FAS), segundo dados da NZX e da Global Dairy Trade.
Para Cristina Alvarado, Head of Dairy Insights da NZX, parceira institucional do eDairyNews, o resultado do Evento 411 foi resiliente, já que a demanda por leite em pó se manteve firme apesar do maior volume sazonal ofertado. Segundo ela, as gorduras lácteas continuaram amolecendo, mas com quedas mais contidas do que o mercado projetava antes do leilão.
O pó de leite desmagrado ultrapassa o integral
O grande destaque do Evento 411 foi o leite em pó desnatado (LPD), que subiu 5,3%, atingindo preço médio de US$ 3.695 por tonelada.
Com esse resultado, o LPD superou pela primeira vez neste período recente o preço do leite em pó integral (LPI), que se manteve praticamente estável, com leve recuo de 0,1% e preço médio de US$ 3.585 por tonelada — mesmo com uma oferta significativamente maior tanto em relação ao evento anterior quanto na comparação anual.
Para Alvarado, a capacidade do mercado de absorver mais pó disponível sem gerar pressão relevante de queda reforça a força da demanda subjacente por proteína.
Gorduras seguram queda, mas cheddar cai ao menor nível em cinco anos
A gordura anidra de leite (AMF) recuou 1,3%, para US$ 5.917 por tonelada, e a manteiga caiu 0,8%, para US$ 5.028. Segundo a executiva da NZX, ambas as quedas ficaram abaixo do que o mercado de derivativos lácteos SGX-NZX havia precificado antes do leilão, mesmo com a disponibilidade global de creme continuando a pressionar os preços.
Já o queijo cheddar foi o ponto mais fraco do evento: caiu 6,6%, para US$ 3.503 por tonelada, seu menor preço na plataforma GDT em cinco anos. Segundo Alvarado, o resultado reflete uma oferta mais forte de queijo disponível para exportação em várias regiões produtoras importantes.
Os demais produtos negociados no Evento 411 fecharam da seguinte forma:
| Produto | Variação | Preço médio (USD/t, FAS) |
|---|---|---|
| Índice GDT | +0,9% | US$ 3.910 |
| Leite em pó integral (LPI) | -0,1% | US$ 3.585 |
| Leite em pó desnatado (LPD) | +5,3% | US$ 3.695 |
| Gordura anidra de leite (AMF) | -1,3% | US$ 5.917 |
| Manteiga | -0,8% | US$ 5.028 |
| Leite em pó de soro de manteiga (BMP) | +4,6% | US$ 4.136 |
| Cheddar | -6,6% | US$ 3.503 |
| Mussarela | +0,3% | US$ 4.244 |
| Lactose | +2,0% | US$ 1.910 |
Ásia segue como o motor da demanda global
A região Norte da Ásia se manteve como a principal compradora no Evento 411, com forte presença também do Sudeste Asiático e Oceania. Segundo Alvarado, a Ásia liderou as compras em vários dos principais produtos negociados — incluindo LPI, AMF, manteiga e cheddar —, o que confirma a importância contínua da região para a demanda global de lácteos.
Um mercado cada vez mais dividido por categoria
De acordo com a Head of Dairy Insights da NZX, o Evento 411 reforça uma divergência crescente dentro do mercado lácteo global: a demanda por proteína segue sustentando os preços dos pós, mesmo com mais oferta disponível, enquanto as gorduras lácteas permanecem sob pressão e o queijo enfrenta um peso maior de oferta.
Segundo ela, a resiliência da demanda por pó continuará sendo um sinal-chave a acompanhar, à medida que a produção de leite no Hemisfério Norte reage aos efeitos de ondas de calor e secas recentes, enquanto compradores seguem garantindo produto para os próximos meses.
O que isso significa para a cadeia láctea brasileira
Para o produtor e a indústria brasileira, o Evento 411 traz um sinal misto, mas relevante. A firmeza da demanda por leite em pó desnatado — mesmo com oferta maior — indica que o mercado internacional segue disposto a pagar por proteína láctea, o que é uma referência direta para quem exporta ou negocia pó de leite no Brasil.
Já a forte queda do cheddar, ao menor patamar em cinco anos, é um alerta para quem compete em queijos no mercado externo: a maior disponibilidade de queijo de outras regiões produtoras pode seguir pressionando preços nos próximos eventos.
Com a Ásia concentrando a demanda e o Hemisfério Norte lidando com clima adverso na produção, o cenário reforça a importância de o Brasil acompanhar de perto os próximos leilões do GDT para calibrar decisões de exportação e precificação nos meses que vêm.







