ESPMEXENGBRAIND
16 set 2026
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Um ingrediente presente em produtos lácteos populares está no centro de uma briga judicial nos EUA 🥛⚖️
alulose
Ele adoça como açúcar, mas o corpo não o processa como açúcar — e isso virou um problema legal 🔍

Uma Corte de Apelações dos Estados Unidos reativou um processo movido por um casal que se sentiu enganado pela Chobani. O motivo: o iogurte grego da marca é vendido com a promessa de “zero açúcar”, mas contém 4 gramas de alulose por porção. Para os autores da ação, isso não deveria contar como “zero”.

O caso escancara uma zona cinzenta regulatória que envolve diretamente o setor lácteo e, cada vez mais, também a indústria de chocolates: a da alulose, um açúcar raro que se comporta como açúcar na cozinha, mas não se comporta como açúcar dentro do corpo humano.

A Food and Drug Administration (FDA) havia orientado, em 2020, que a alulose não precisava entrar no cálculo de “Açúcares Totais” ou “Açúcares Adicionados” nos rótulos, justamente porque o composto é quase todo eliminado sem ser metabolizado. O problema é que essa orientação foi emitida sob o que se chama de “discricionariedade de fiscalização” — ou seja, não alterou a regulamentação federal em si.

E a legislação que define “Açúcares Totais” continua incluindo monossacarídeos, categoria à qual a alulose pertence. Foi essa brecha que permitiu à Justiça reabrir o processo contra a Chobani. Se a ação avançar, o resultado pode redesenhar o que fabricantes de laticínios e outros alimentos podem ou não declarar em suas embalagens.

Do ponto de vista químico, a explicação para essa dualidade vem da professora de fisiologia da nutrição Hannelore Daniel, da Universidade Técnica de Munique: a alulose é, em essência, uma “gêmea” da frutose, mas não pode ser quebrada pela enzima aldolase. Isso significa que praticamente toda a alulose consumida é excretada pelos rins e eliminada na urina, sem afetar a glicemia nem provocar liberação de insulina. Ela também tem apenas 0,4 kcal por grama e cerca de 70% do poder de doçura do açúcar comum (sacarose).

É uma origem, no entanto, industrial. Empresas como a Tate & Lyle convertem grãos de milho em amido, o amido em frutose e, a partir daí, produzem a alulose comercializada como ingrediente adoçante. Ainda assim, segundo a Universidade de Nottingham, tanto a alulose que ocorre naturalmente em pequenas quantidades — em figos, uvas-passas, trigo e xarope de bordo — quanto a fabricada industrialmente têm exatamente a mesma fórmula e estrutura.

O apetite da indústria por esse ingrediente ficou mais evidente com o pedido de patente da suíça Lindt & Sprüngli, em parceria com a fabricante de ingredientes Savanna Ingredients, para um chocolate à base de alulose. Segundo Antonella Lisella, gerente de projetos da prática de Alimentos e Nutrição da Kline and Company, o interesse vai além do sabor: a alulose consegue reproduzir funções que o açúcar cumpre em receitas, como volume, textura, capacidade de dourar e sensação na boca — características difíceis de imitar com outros adoçantes de alta intensidade. Por isso, afirma Lisella, os fabricantes têm optado por incorporar a alulose dentro de sistemas mais amplos de adoçantes, em vez de usá-la isoladamente como substituta do açúcar.

Nem tudo, porém, são vantagens. O pesquisador EJ Simpson, da Unidade de Fisiologia Humana David Greenfield da Universidade de Nottingham, alerta que o consumo em grandes quantidades já demonstrou causar distensão abdominal, gases, cólicas e diarreia. Os efeitos de longo prazo de um consumo elevado ainda estão sendo estudados.

No mapa regulatório mundial, a alulose já está aprovada em mercados como Estados Unidos, China, Japão, Cingapura, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia e México. A exceção relevante é a União Europeia, onde o ingrediente ainda não tem autorização para uso alimentar por se enquadrar na estrutura de “Novel Food” e aguardar conclusão do processo regulatório. Segundo Lisella, a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar não classificou a alulose como insegura — apenas concluiu que a segurança ainda não pôde ser estabelecida com as informações disponíveis até agora, o que deixa a porta aberta para uma futura aprovação.

Quanto à produção, a liderança do setor está concentrada na Ásia. De acordo com o Alternative Sweeteners Intelligence Center, da Kline, os principais fornecedores globais incluem a Samyang e a Daesang, ambas da Coreia do Sul, além de fabricantes chineses como Shandong Sanyuan Bio, Shandong Bailong Chuangyuan e Baolingbao, que ampliaram capacidade após a aprovação regulatória doméstica na China. Do lado ocidental, destacam-se a Tate & Lyle — pioneira na produção em escala comercial, com um xarope de alulose lançado em 2016 —, a Ingredion, nos Estados Unidos, e a alemã Savanna Ingredients, parceira da Lindt no projeto de chocolate. A eventual aquisição da Tate & Lyle pela Ingredion ganha um capítulo extra justamente por conta disso: as duas companhias têm a alulose em seus portfólios.

Enquanto a disputa judicial nos Estados Unidos ainda não tem desfecho, o mercado segue apostando: a alulose segue sendo um dos ingredientes mais observados por quem precisa reduzir açúcar sem abrir mão do sabor — e sua trajetória regulatória, incluindo o que acontece agora nos tribunais americanos, pode se tornar um precedente observado de perto por toda a cadeia de alimentos e laticínios.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Reporter

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