ESPMEXENGBRAIND
16 set 2026
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🐄 Pesquisadores mineiros driblaram um obstáculo antigo e abriram caminho para testar rebanhos e alimentos fora dos grandes centros.
🔬 Uma solução criada em laboratório resolveu um problema que travava exames de tuberculose em áreas rurais há décadas.
🔬 Uma solução criada em laboratório resolveu um problema que travava exames de tuberculose em áreas rurais há décadas.

A tuberculose bovina não é só um problema sanitário: é uma ameaça direta à rentabilidade do produtor e à segurança de quem consome leite cru e seus derivados.

Causada pela Mycobacterium bovis, a doença provoca perdas econômicas nos rebanhos e pode ser transmitida a humanos, principalmente por meio de alimentos como queijos artesanais produzidos com leite não pasteurizado. Diagnosticar o problema com agilidade sempre esbarrou em um obstáculo prático: os exames tradicionais exigem centrífugas refrigeradas e cabines de segurança biológica, equipamentos caros e concentrados nos grandes centros urbanos — bem longe da realidade de boa parte das propriedades leiteiras do país.

Uma parceria entre a Embrapa Gado de Leite, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) acaba de resolver esse gargalo. A tecnologia, batizada de RRTB, recebeu carta-patente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e atingiu o nível 8 na escala TRL/MRL — ou seja, já está validada e incorporada à rotina de laboratórios de referência.

O caminho até aqui passou por outra técnica já conhecida, o método Ogawa-Kudoh, que havia simplificado parte do processo ao usar um swab (uma haste com algodão) para descontaminar a amostra, eliminando a necessidade de centrifugação. O problema é que esse método só funciona com amostras de escarro, porque depende de um meio de cultura com pH ácido — o que o torna inviável para fluidos biológicos estéreis, como líquido pleural, líquido ascítico e líquor.

Foi exatamente essa limitação que o RRTB superou. A equipe desenvolveu uma solução neutralizadora própria, à base de ácido cítrico, citrato de amônio e citrato de sódio, aplicada entre a descontaminação da amostra e a semeadura no meio de cultura Löwenstein-Jensen — o mais barato e mais usado no Brasil. Segundo o pesquisador da Fhemig Ronaldo Rodrigues da Costa, autor da tecnologia durante seu doutorado na UFJF, o ajuste permite trabalhar com um pH mais adequado ao crescimento da micobactéria, viabilizando o uso do meio de cultura tradicional tanto para escarro quanto para fluidos estéreis, sem precisar de técnicas distintas para cada tipo de amostra.

Na prática, isso significa dispensar centrífugas e estruturas complexas. O exame pode ser adotado por laboratórios pequenos e unidades de saúde de áreas rurais — e, para a cadeia leiteira, isso abre a porta para testar diretamente amostras clínicas de animais e de alimentos, incluindo queijos artesanais.

Os números validam a proposta. Em um estudo-piloto com 77 amostras, o RRTB apresentou sensibilidade de 90,91% e especificidade de 94,34% frente ao método padrão-ouro (Petroff), e sensibilidade de 94,74% e especificidade de 92,45% frente ao método Ogawa. O ganho mais relevante para quem opera um laboratório foi a queda na taxa de contaminação do cultivo: apenas 1,30%, contra 2,60% e 6,50% registrados pelos métodos convencionais — menos amostra perdida, menos reteste, menos custo.

A validação avançou depois para sete laboratórios de referência de Minas Gerais, entre eles cinco unidades macrorregionais, um centro de tratamento de tuberculose e um hospital universitário. Ao todo, 593 pares de amostras confirmaram a equivalência diagnóstica do RRTB em relação ao Ogawa-Kudoh. Nessa etapa, os pesquisadores ampliaram o escopo da tecnologia para o diagnóstico da tuberculose extrapulmonar, da tuberculose zoonótica causada por M. bovis e para a detecção do agente em amostras clínicas de animais e alimentos — a etapa que interessa diretamente a quem lida com rebanhos e produtos lácteos.

Para isso, a equipe testou o meio Löwenstein-Jensen com piruvato, que favorece o crescimento de M. bovis, e obteve desempenho semelhante ao do meio convencional. O resultado amplia a possibilidade de aplicar o método em amostras de origem animal e alimentar, conectando diagnóstico humano e vigilância do rebanho sob a mesma lógica de Saúde Única — o conceito que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Como resume o pesquisador da Embrapa Márcio Roberto Silva, ao pensar a tuberculose por essa perspectiva não é possível olhar só para o ser humano: animais e alimentos também fazem parte da cadeia de transmissão do agente zoonótico.

A pesquisadora Isabel Cristina Gonçalves Leite, orientadora do estudo na UFJF, destaca que a tecnologia foi construída a partir de metodologias já existentes, com custo reduzido e potencial de uso em países em desenvolvimento onde a tuberculose ainda tem grande peso epidemiológico. Silva reforça o efeito de descentralização: como grande parte do diagnóstico de TB depende de laboratórios altamente estruturados concentrados em centros urbanos, o RRTB pode ser adotado até por laboratórios menores, em áreas rurais.

O reconhecimento já passou pelas fronteiras do país: o método foi publicado em periódico científico internacional em 2022 e, em 2024, foi selecionado pela Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, do Reino Unido, como um dos quatro destaques mundiais apresentados em um evento internacional sobre o Dia Mundial da Tuberculose.

O que falta agora é a etapa comercial. O Centro Regional de Inovação e Transferência de Tecnologia da UFJF (Critt/UFJF) está em busca de empresas interessadas em licenciar o RRTB e viabilizar sua produção e distribuição em escala. O método também depende de submissão à Anvisa antes de deixar o ambiente de laboratórios de pesquisa e validação e chegar à rede de diagnóstico de tuberculose no Brasil e em outros países. Empresas e instituições interessadas em conversar sobre a transferência de tecnologia podem procurar o Critt/UFJF pelo e-mail att.critt@ufjf.br.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Embrapa

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