O produtor de leite brasileiro passou o primeiro semestre de 2026 comemorando um cenário raro: preços em alta consistente, captação recorde e uma relação de troca cada vez mais favorável com os grãos. Essa fase, porém, começou a virar.
O preço do leite recuou pela terceira quinzena consecutiva na primeira metade de setembro, caindo a R$ 2,928 por litro — uma queda de 9,3% frente ao pico de R$ 2,8761 registrado em julho, quando o Indicador Cepea havia alcançado seu maior valor do ano, 42% acima de janeiro.
A reversão não é um detalhe isolado. Ela chega justamente no momento em que três outras variáveis se movem na direção contrária aos interesses do produtor: os custos de produção voltam a subir, as importações batem recordes sucessivos e o consumo interno perde força. É essa combinação — e não a queda de preço isoladamente — que a Nota de Conjuntura do Mercado de Leite e Derivados de setembro, elaborada pelo Centro de Inteligência do Leite da Embrapa Gado de Leite, aponta como o novo desafio do quarto trimestre.
A fatura da ração está mudando
Um dos sinais mais concretos dessa virada está no cocho. Em agosto, o farelo de soja subiu 8,7% e o milho avançou 7,3%, revertendo parte de uma vantagem que havia sido conquistada ao longo do ano. Em janeiro, eram necessários 33,6 litros de leite para comprar uma saca de milho; em julho, essa relação havia caído para 23,6 litros — o produtor precisava vender bem menos leite para pagar a mesma saca. Com a alta dos grãos em agosto, parte dessa folga começou a desaparecer. O Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite/Embrapa) subiu 1,14% em julho e já acumula 2,61% de alta no ano.
O custo do dinheiro também não ajuda: a Selic segue em 14% ao ano, equivalente a uma taxa de juro real de 9,30%. No agronegócio como um todo, os pedidos de recuperação judicial somaram 474 no primeiro trimestre, um salto de 21,9% sobre o mesmo período de 2025.
Importações batem recorde pelo sexto mês seguido
Enquanto os custos pressionam por dentro da porteira, a concorrência externa pressiona por fora. O Brasil importou o equivalente a 224 milhões de litros de leite em agosto, volume 39,6% maior que no mesmo mês de 2025 e o sexto mês consecutivo acima de 200 milhões de litros equivalentes. Quase 90% desse volume veio do Mercosul — a Argentina respondeu por 66,3% das compras e o Uruguai por 23%. Três quartos do total foram de leite em pó, com destaque para o leite em pó integral, único item que ainda cresceu entre as principais categorias importadas, com alta de 7,9%.
O resultado é um déficit da balança de lácteos de 219 milhões de litros equivalentes só em agosto — leite que entra de fora e disputa espaço com o produto nacional justamente quando a demanda interna já dá sinais de cansaço.
O consumidor também freou
O quarto elemento da equação está na ponta da gôndola. O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre, puxado pela agropecuária (+2,8%), mas o consumo das famílias recuou 0,4%. O endividamento das famílias chegou a 82%, sexto recorde mensal seguido. O leite longa vida, que responde por 57% do volume vendido no varejo, acumula alta de 27,3% no ano e concentra 92% de toda a perda de volume registrada entre janeiro e agosto — queda de 3,3% em litros vendidos e de 3,7% no faturamento real. É o retrato de uma categoria em que o preço já não consegue ser repassado com a mesma facilidade ao consumidor final.
O que muda para o produtor a partir de agora
Nem tudo se moveu na mesma direção em todo o país. Entre os Conseleites, Paraná (-0,4%), Rio Grande do Sul (-1%) e Santa Catarina (-1,7%) projetaram queda no preço do leite entregue em agosto, enquanto Minas Gerais foi na contramão, com alta prevista de 1,2%. No mercado spot, porém, o recuo foi generalizado: todos os estados acompanhados registraram queda na primeira quinzena de setembro, e o próprio Cepea já sinaliza um fechamento de trimestre mais fraco.
No cenário internacional, o quadro é de recuperação parcial e desigual. O índice geral dos leilões do Global Dairy Trade encadeou quatro altas seguidas — 1,5%, 0,1%, 2,3% e 0,9% — recuperando parte da queda de 4,9% registrada em 7 de julho, mas ainda 7,5% abaixo do pico de março. No leilão de 1º de setembro, o leite em pó desnatado subiu 5,3%, para US$ 3.695 por tonelada, o maior valor desde 2022, enquanto o integral ficou praticamente estável. Já a manteiga caiu 0,8%, a gordura anidra recuou 1,3% e o cheddar teve a maior queda, de 6,6%, ao menor valor desde 2023 — uma redistribuição de valor entre derivados, segundo a Embrapa, mais do que uma alta generalizada.
Para fechar o quadro do quarto trimestre, entra ainda uma variável que ninguém controla: o clima. A Embrapa aponta o super El Niño previsto entre outubro e dezembro de 2026, com efeitos que podem se estender até março de 2027, como o principal fator de risco para a disponibilidade de pastagens e alimentos do rebanho nos próximos meses.
A conclusão da Nota de Conjuntura resume o momento: o produtor ainda opera com preços em patamar elevado, mas a margem de segurança que sustentou o primeiro semestre está encolhendo — justamente quando milho e farelo de soja voltam a pressionar o custo de produção.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por O Presente Rural






