Há um dado da pecuária catarinense que merece mais atenção do que a comemoração de um novo recorde. Em 2025, Santa Catarina produziu 3,4 bilhões de litros de leite, o maior volume desde que o IBGE começou a acompanhar essa série histórica, em 1974.
Entretanto, enquanto a produção alcançava seu melhor resultado, o valor gerado pela atividade recuava 2,1%, chegando a R$ 8,2 bilhões. No mesmo período, o valor da produção leiteira brasileira cresceu 2,3%.
Os números fazem parte da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e ajudam a compreender uma contradição que há muito tempo acompanha a pecuária leiteira. O produtor investe em genética, alimentação, manejo, instalações e produtividade, consegue colocar mais leite no mercado, mas nem sempre encontra preços capazes de acompanhar esse esforço.
É importante fazer uma distinção: o levantamento do IBGE não mede diretamente a rentabilidade das propriedades. A redução no valor da produção, portanto, não significa que todos os produtores tiveram prejuízo. Mas o contraste entre volume recorde e queda no valor total é um sinal econômico que merece investigação, especialmente em uma cadeia na qual as margens dependem de custos que nem sempre acompanham o comportamento do preço recebido pelo leite.
O que os números revelam sobre a pecuária catarinense
Santa Catarina alcançou R$ 10,6 bilhões em valor de produção de origem animal em 2025, crescimento de 2,5% em relação ao ano anterior e novo recorde estadual. O leite respondeu por aproximadamente R$ 8,2 bilhões desse total, mantendo-se como o principal produto pesquisado nessa categoria pelo IBGE.
Enquanto o leite perdeu valor, a produção de ovos de galinha cresceu 18%, alcançando R$ 2,1 bilhões, e os ovos de codorna registraram avanço de 204,7%, chegando a R$ 158,7 milhões. São comportamentos distintos dentro da mesma economia rural, que mostram como produção, preços e condições de mercado podem afetar cada cadeia de maneira diferente.
O leite, entretanto, chama atenção porque o aumento contínuo do volume produzido convive com uma pressão recorrente sobre a remuneração. O crescimento da oferta é uma conquista tecnológica e produtiva, mas também exige capacidade de absorção pela indústria e pelo mercado consumidor.
Quando essa capacidade não acompanha a expansão, a maior disponibilidade de produto pode pressionar as negociações comerciais. E, diferentemente de uma cultura agrícola que permite alguma flexibilidade no momento da venda, o leite precisa ser coletado, processado e comercializado continuamente.
O produtor não controla todas as variáveis dessa conta
A produção leiteira tem características que tornam essa relação especialmente delicada. A vaca precisa ser alimentada e ordenhada todos os dias, independentemente da cotação do produto. A propriedade mantém despesas com alimentação, energia elétrica, sanidade, mão de obra e manutenção, enquanto o preço recebido pode variar conforme as condições do mercado.
Aumentar a produtividade pode ajudar a diluir custos e melhorar a eficiência, mas isso não elimina a exposição às oscilações de preços. Em determinadas situações, produzir mais pode representar uma estratégia de sobrevivência econômica; em outras, a expansão da oferta contribui para ampliar a pressão sobre o próprio mercado.
Também é preciso reconhecer que a cadeia leiteira brasileira reúne realidades muito diferentes. Existem propriedades altamente tecnificadas, produtores familiares, cooperativas e indústrias com diferentes capacidades de investimento, negociação e acesso ao mercado.
Por isso, qualquer discussão sobre competitividade precisa considerar não apenas o volume produzido, mas a capacidade de transformar essa produção em renda e sustentabilidade econômica para os diferentes perfis de produtores.
Importações e política comercial entram na discussão
O debate sobre o leite também ultrapassa as porteiras e chega a Brasília. Produtores e entidades representativas vêm questionando os efeitos das importações de lácteos, especialmente do leite em pó, sobre a formação dos preços no mercado brasileiro.
O tema envolve acordos comerciais, condições de concorrência, instrumentos de defesa comercial e a relação do Brasil com fornecedores do Mercosul. Há reivindicações por medidas capazes de evitar distorções comerciais e proteger a produção nacional de práticas consideradas desleais.
Mas é necessário separar os fatores. A Pesquisa da Pecuária Municipal mostra o desempenho da produção brasileira em 2025, sem estabelecer quanto da variação do valor recebido decorreu das importações, do consumo interno ou de outros movimentos de mercado. Atribuir toda a dificuldade enfrentada pelos produtores a um único fator seria simplificar uma cadeia que depende de diferentes variáveis.
O papel da política pública deveria ser justamente oferecer condições para que essas questões sejam examinadas com dados, previsibilidade e instrumentos adequados, sem transformar a discussão em uma disputa entre quem produz e quem consome.
O desafio não é apenas bater recordes
O resultado catarinense merece reconhecimento. Produzir 3,4 bilhões de litros de leite exige investimento, conhecimento técnico, trabalho diário e uma estrutura produtiva construída ao longo de décadas. Mas o recorde também precisa provocar uma reflexão sobre o que estamos utilizando como medida de sucesso da agropecuária.
É natural celebrar quando a produção aumenta, quando um estado sobe no ranking nacional ou quando uma cadeia alcança novos patamares de produtividade. Esses indicadores mostram capacidade produtiva, mas não contam toda a história econômica de quem está na atividade.
A permanência das famílias no campo, a sucessão rural e a disposição para novos investimentos dependem de uma atividade que consiga remunerar adequadamente o capital, o trabalho e os riscos assumidos.
O IBGE nos entregou dois números que precisam ser lidos juntos: Santa Catarina produziu mais leite do que em qualquer outro momento da sua história, mas o valor dessa produção diminuiu em relação ao ano anterior.
O desafio agora é compreender o que está por trás dessa diferença e quais condições permitirão que o crescimento da produção venha acompanhado de resultados econômicos mais consistentes.
Porque, quando analisamos o futuro da pecuária leiteira, a pergunta não deveria ser apenas quantos bilhões de litros o Brasil conseguirá produzir. Também precisamos perguntar quantos produtores terão condições de continuar produzindo.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por .U






