O avanço do acordo Mercosul–União Europeia passou a ser um ponto crítico para o setor lácteo do Rio Grande do Sul.
Com o texto-base já aprovado na Câmara dos Deputados e em análise no Senado, a cadeia produtiva gaúcha avalia os efeitos concretos da redução gradual das tarifas de importação prevista ao longo de até 18 anos.
A principal mudança está no cronograma de abertura comercial. Para a indústria de laticínios, a diminuição progressiva das tarifas pode ampliar a entrada de produtos europeus no mercado brasileiro. Embora o acordo estabeleça cotas, o receio manifestado pelo Sindicato da Indústria de Laticínios do RS, em reunião realizada em Porto Alegre, é de que no médio e longo prazo haja aumento das importações de queijos finos e lácteos de maior valor agregado.
Segundo o secretário-executivo do Sindilat, Darlan Palharini, a preocupação central envolve a concorrência com produtos europeus subsidiados. Na avaliação do setor, a combinação entre subsídios externos e redução tarifária tende a pressionar a indústria local, especialmente em segmentos de maior valor agregado.
O contexto interno amplia essa apreensão. O Rio Grande do Sul acumula nove meses consecutivos de queda nos preços pagos ao produtor. Ao mesmo tempo, a importação de leite em pó e muçarela da Argentina já exerce pressão sobre o mercado doméstico, sobretudo em períodos de câmbio favorável. A eventual ampliação do acesso de produtos europeus ocorre, portanto, em um cenário de rentabilidade fragilizada na produção primária.
Para a cadeia láctea gaúcha, o impacto potencial não se limita à indústria. A redução de preços ou a perda de participação de mercado pode repercutir ao longo de toda a estrutura produtiva, do produtor ao processamento. O estado é o terceiro maior produtor nacional e encerrou 2025 com 4,3 bilhões de litros de leite, o que amplia a relevância estratégica do tema para a economia regional.
No Senado, o relatório está sob responsabilidade da senadora Tereza Cristina. O setor defende a inclusão de mecanismos de proteção que mitiguem riscos para segmentos considerados sensíveis. Nesse sentido, Palharini mencionou manifestação do vice-presidente Geraldo Alckmin sobre a construção de salvaguardas, sinalizando que o debate sobre instrumentos de defesa comercial ainda está em aberto.
Apesar das dificuldades recentes, a indústria gaúcha ressalta avanços em qualidade, rastreabilidade e fiscalização. Esses fatores são apresentados como diferenciais competitivos, mas não eliminam a preocupação com a assimetria de condições frente a produtos subsidiados.
Enquanto aguarda a decisão do Senado, a cadeia produtiva reforça a necessidade de equilíbrio nas negociações. Para produtores e indústrias, o ponto central é assegurar que a abertura comercial prevista no acordo Mercosul–União Europeia não comprometa a competitividade do setor lácteo do Rio Grande do Sul em um momento já marcado por pressão de preços e aumento de importações.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Radio Caxias 93.5 FM






