ESPMEXENGBRAIND
11 set 2026
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11 set 2026
Consumidores comemoram embalagens "mais naturais", mas por trás da mudança há uma conta que preocupa a indústria toda 🎨
Grandes marcas prometeram mudar a receita até 2027 — e agora descobrem que a promessa pode custar mais do que imaginavam 🌾
Grandes marcas prometeram mudar a receita até 2027 — e agora descobrem que a promessa pode custar mais do que imaginavam 🌾

Nos últimos dois anos, uma palavra passou a valer mais nas prateleiras americanas do que qualquer outra promessa de marketing: natural.

Produtos com selo de “corantes naturais” tiveram alta de 24,4% nas vendas entre 2024 e 2025, enquanto os que ainda declaram corantes artificiais cresceram apenas 0,1%. No segmento de candies, a diferença se repete: quase 20% de avanço para o natural contra 0,2% para o artificial.

A General Mills é o exemplo mais visível dessa virada. A empresa removeu os corantes derivados de petróleo de todos os cereais vendidos no varejo americano — Lucky Charms e Trix incluídos —, completando um dos compromissos de reformulação mais observados da indústria de alimentos.

Já em março, a companhia havia eliminado esses corantes das linhas destinadas à merenda escolar (K-12). Hoje, 90% do portfólio de varejo dos EUA já fez a transição; restam categorias como snacks de frutas e produtos de panificação, com prazo até o fim de 2027.

O caso da PepsiCo reforça que a aposta comercial faz sentido: as versões “Simply NKD” de Doritos e Cheetos, lançadas ao lado das linhas tradicionais, faturaram mais de US$ 3 milhões só no primeiro mês. A fabricante de doces Atkinson Candy, que começou a trocar corantes FD&C em 2019, viu as vendas de seu Chick-O-Stick crescerem 60,3% entre 2020 e 2025.

Só que por trás desses números de vitrine existe uma conta muito mais complexa — e é aí que a indústria começa a se preocupar de verdade. Um relatório encomendado pela National Confectioners Association (NCA) e conduzido pela RTI International revela o tamanho real do desafio.

Em 2025, produtos com corantes certificados FD&C representaram apenas 4% dos itens vendidos no varejo americano, mas movimentaram US$ 57,8 bilhões — o equivalente a 7,1% de todas as vendas de alimentos e bebidas do país. Bebidas concentram 28,9% dessas vendas, seguidas por candies (22,4%), salgadinhos (19,6%) e doces (17,9%). No universo das confeitarias, produtos com FD&C respondem por 42,2% do faturamento da categoria.

O problema é que trocar corante sintético por corante natural não é uma equação de um para um. Para reproduzir a mesma intensidade de cor, os fabricantes podem precisar de até dez vezes mais corante não-FD&C — porque os pigmentos derivados de plantas são, em geral, bem menos concentrados.

Em 2025, os EUA certificaram cerca de 21,4 milhões de libras de corantes FD&C vermelhos, amarelos, azuis e verdes, contra um mercado não-FD&C de apenas 12 milhões de libras, que cresceu devagar desde 2021. Segundo a RTI, uma transição completa poderia elevar a demanda por corantes naturais entre 400% e 500% — um salto que a base agrícola e a capacidade de processamento atuais simplesmente não sustentam sem investimento pesado.

Os fornecedores já sentem a pressão. A Sensient Technologies está investindo até US$ 250 milhões para expandir sua fabricação de corantes naturais, incluindo mais 28.800 pés quadrados em sua planta de St. Louis.

O CEO da empresa, Paul Manning, chama a conversão de “a maior oportunidade da história da companhia” e estima que cerca de US$ 100 milhões da receita atual com corantes sintéticos possam migrar para alternativas naturais, com um múltiplo de receita de cerca de 10 para 1 — justamente porque é preciso muito mais corante para reproduzir a mesma tonalidade.

A RTI modelou três cenários de demanda até 2028. No cenário-base, o preço médio dos corantes não-FD&C precisaria subir 53% para estimular oferta suficiente. No cenário acelerado — com demanda 2,5 vezes maior —, o aumento médio chega a 516%. No cenário de estresse, com demanda quadruplicada, a alta média ultrapassa 1.000%.

A curcumina é o caso mais extremo: um crescimento de demanda de apenas 26% já exigiria alta de preço de 277%; no cenário acelerado, o aumento chega a 1.600%; no de estresse, a 3.200%. Outros pigmentos também sofreriam forte pressão no cenário acelerado: luteína (+926%), urucum/annatto (+860%), flor de ervilha-borboleta (+856%), clorofilas (+539%) e açafrão (+497%).

Essa pressão de preço tem uma explicação geográfica clara: os Estados Unidos dependem de importações para praticamente toda sua matéria-prima de corante natural — 98,2% no caso do annatto, 99,1% para a flor de ervilha-borboleta e 99,7% para o açafrão.

A China fornece 76% da capsantina importada (pigmento vermelho da páprica) e 75% do genipin usado no azul de gardênia; a Índia responde por 86% da curcumina e 74% da luteína importadas pelos EUA. No cenário acelerado do estudo, as importações adicionais desses corantes saltariam de 34 toneladas métricas (cenário-base) para 366 toneladas; no cenário de estresse, para 733 toneladas — mostrando que boa parte do ajuste recairia sobre o comércio internacional, não sobre a produção doméstica, que reage muito mais devagar.

Só para carotenoides derivados de abóbora, seriam necessários 22.375 acres adicionais de plantio no cenário acelerado, e 44.750 acres no cenário de estresse.

Mesmo resolvido o problema da matéria-prima, a indústria ainda enfrenta a etapa mais delicada: fazer o corante natural funcionar dentro do produto. Diferentemente dos corantes sintéticos, os naturais reagem de forma imprevisível ao calor, à luz, ao oxigênio, à acidez e à umidade — a cúrcuma e a espirulina são citadas como especialmente difíceis de estabilizar.

Uma cor que parece perfeita em teste de laboratório pode desbotar na prateleira ou migrar para outro componente da embalagem meses depois. Como resultado, fabricantes podem precisar redesenhar embalagens — tornando opacas as que hoje são transparentes, para bloquear a luz — e apertar o controle de estoque diante de prazos de validade mais curtos.

A RTI estima que o custo de reformulação varia entre US$ 50 mil e US$ 500 mil por SKU, somando desenvolvimento, testes de estabilidade, avaliação sensorial e revisão regulatória — uma conta que se multiplica rapidamente para multinacionais com centenas de receitas e linhas de produção. Os testes de validade de prateleira levam cerca de 12 meses, podendo chegar a 24 em alguns casos, e desenvolver um sistema de cor totalmente novo pode levar de três a quatro anos ou mais.

Há ainda uma questão de segurança: corantes não-FD&C não passam pelo mesmo sistema de certificação em lote da FDA aplicado aos sintéticos, o que abre espaço para riscos de contaminação, metais pesados e rastreabilidade mais fraca — um alerta que a própria Sensient já fez, prevendo mais falhas em testes conforme fornecedores acelerem a produção para dar conta da demanda.

Uma das apostas para destravar esse gargalo vem da biotecnologia: a Oterra fechou uma parceria multimilionária com a empresa Debut para desenvolver, por fermentação de precisão, uma alternativa ao corante Vermelho 40, com disponibilidade em escala comercial prevista para dentro de três anos.

Segundo Luc Ganivet, chefe de inovação da Oterra, controlar o processo de fermentação permite obter uma cor mais estável e menos dependente do clima. Já Michael Kreuzer, presidente da Oterra nos EUA, avalia que os fabricantes que começarem a conversão mais cedo terão vantagem tanto no fornecimento quanto no domínio técnico do processo — quem deixar para depois enfrentará custos mais altos e oferta mais limitada.

Companhias como Kraft Heinz, Nestlé USA, Conagra, Tyson Foods, Hershey, Grupo Bimbo, Kellanova, Utz Brands, McKee Foods, Campbell’s e JM Smucker já assumiram compromissos de remoção de corantes certificados, a maioria com prazo entre 2026 e o fim de 2027.

O Walmart pretende retirar corantes certificados e mais de 30 outros ingredientes de suas marcas próprias até janeiro de 2027; o Target já concluiu a remoção nos cereais que vende; e a American Bakers Association se comprometeu a eliminar corantes FD&C de produtos de panificação destinados à merenda escolar a partir do ano letivo 2026-27.

Para o presidente e CEO da NCA, John Downs, substituir corantes sintéticos é muito mais do que um desafio de reformulação — é uma transformação de cadeia de suprimentos inteira, que exige certeza regulatória antes que as empresas possam investir no longo prazo necessário para expandir a oferta e fortalecer a manufatura doméstica.

O relatório da NCA e da RTI lista as medidas consideradas necessárias para evitar desabastecimento: padrões nacionais uniformes com prazos realistas, expansão da produção doméstica de culturas usadas como corante e da capacidade de extração, acordos de longo prazo entre produtores agrícolas, fornecedores e fabricantes, avanços na estabilidade das alternativas naturais, priorização das reformulações mais simples enquanto se desenvolvem soluções para produtos complexos, coordenação entre embalagem, rotulagem e distribuição para evitar estoques parados, investimento em fermentação de precisão e outras tecnologias escaláveis, e preparação do consumidor para eventuais diferenças de cor, preço e desempenho do produto.

Sem essa coordenação, alerta a RTI, a transição pode custar mais caro, gerar descompasso entre estados com regras diferentes, provocar desabastecimento e desperdício — o contrário exato do que as marcas prometeram quando anunciaram, em comunicados cheios de otimismo, que 2027 seria o ano da cor 100% natural.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Reporter

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