ESPMEXENGBRAIND
2 ago 2026
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Uma pesquisa de doutorado revela como famílias imigrantes transformaram uma tradição doméstica em símbolo regional 🧀
queijo
Entre normas sanitárias e memória afetiva, um produto quase informal chegou ao reconhecimento oficial 📖

O queijo colonial do Sudoeste do Paraná deixou de ser apenas um hábito de família para se tornar Indicação Geográfica reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e, além disso, patrimônio cultural e imaterial da região por lei estadual aprovada em 2024.

O caminho até esse reconhecimento é o fio condutor do livro “A Produção do Queijo Artesanal”, lançado pela professora e pesquisadora Melaine Roberta Camarotto, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Francisco Beltrão.

A obra é resultado de sua pesquisa de doutorado em Geografia, realizada entre 2021 e 2024 na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), também em Francisco Beltrão, e está disponível gratuitamente em versão digital.

A Indicação Geográfica, na modalidade Indicação de Procedência, abrange 42 municípios da região e pertence à Associação dos Produtores de Queijo Artesanal do Sudoeste do Paraná (Aprosud), responsável por administrar seu uso.

Quem quiser se beneficiar do selo precisa seguir um caderno de especificações técnicas que trata do processo de fabricação, das condições sanitárias, das características do produto e da saúde dos rebanhos, com um comitê gestor acompanhando o cumprimento das normas. Segundo Melaine, esse sistema permite rastrear a origem do queijo, dar garantias ao consumidor e agregar valor ao produto.

Mas esse reconhecimento é recente diante de uma história que começou quase um século antes, dentro de casa. De acordo com a pesquisa, a produção artesanal de queijo no Sudoeste do Paraná passou a se consolidar a partir da década de 1930, com a colonização da região por migrantes de origem italiana, alemã e polonesa, que trouxeram consigo hábitos alimentares e técnicas de suas regiões de origem.

Fazer queijo era, nesse primeiro momento, uma tarefa das mulheres, voltada a garantir a alimentação das famílias. “Eles continuaram a produzir os alimentos que lembravam suas origens. Assim começou a produção artesanal de queijos no Sudoeste do Paraná, inicialmente como uma atividade feminina, voltada à alimentação da família”, relata a autora.

O que sobrava começou a ser vendido entre vizinhos e moradores das comunidades, ampliando o consumo e ajudando a preservar o modo tradicional de fabricação.

Essa continuidade, no entanto, foi ameaçada em 1952, quando entrou em vigor a regulamentação dos alimentos de origem animal, exigindo procedimentos como a pasteurização do leite e a inspeção federal — condições distantes da realidade das pequenas queijarias familiares.

O resultado, segundo Melaine, foi que parte dos produtores abandonou a fabricação, enquanto outros seguiram produzindo à margem do sistema, sem conseguir adaptar suas estruturas às exigências pensadas para os grandes laticínios. Essa situação de informalidade se estendeu por 65 anos, entre 1952 e 2017.

A mudança veio em 2017, com a flexibilização das regras para queijos artesanais feitos com leite cru, desde que cumpridos requisitos sanitários como o controle de tuberculose e brucelose nos rebanhos, a adoção de boas práticas de fabricação e um período de maturação definido para o produto.

Foi essa abertura que permitiu manter uma característica central do queijo colonial: o uso do leite cru, que preserva traços ligados ao modo de fazer de cada família e ao território onde o queijo é produzido. Alimentação dos animais, vegetação, clima, raça do rebanho e conhecimentos passados entre gerações interferem no resultado final — a ponto de, segundo a pesquisadora, queijos de uma mesma propriedade poderem apresentar diferenças ao longo do ano.

“O queijo artesanal tem uma diversidade. Cada produto apresenta uma especificidade, seja pelo saber-fazer do produtor, seja pelas características do território”, explica Melaine.

Foi nesse contexto de reabertura regulatória que a Aprosud passou a organizar os produtores e buscar reconhecimento para o queijo colonial, que segue como o principal produto das queijarias artesanais da região, dada sua relação histórica com a formação das comunidades locais.

Entre 2018 e 2025, os associados da entidade somaram 61 medalhas em concursos estaduais, nacionais e internacionais — resultados que, na avaliação de Melaine, ajudaram a ampliar o reconhecimento de um produto que já fazia parte do cotidiano regional.

Visitas técnicas, reportagens, premiações e intercâmbios com produtores de outras regiões também contribuíram para dar visibilidade ao queijo colonial, em um processo que exigiu mudanças na organização das queijarias e na gestão das propriedades para acompanhar o crescimento da demanda.

Por trás da tese, há também uma história pessoal. Filha de Inês e Mario Camarotto, que migraram de Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina, para Francisco Beltrão em 1979, Melaine cresceu em contato com famílias produtoras da região — o pai trabalhava com máquinas e equipamentos agrícolas e construiu amizades com agricultores locais.

Nos fins de semana e nas férias de infância, ela acompanhava a ordenha e a transformação do leite em queijo nessas propriedades, uma vivência que, anos depois, aproximou sua trajetória acadêmica do tema.

Graduada em administração com habilitação em comércio exterior, com especializações em controladoria e gestão financeira e em gestão de empresas cooperativas, além de mestre em gestão e desenvolvimento regional e doutora em geografia na linha de desenvolvimento econômico e dinâmicas territoriais, Melaine reuniu essas diferentes formações para analisar a produção artesanal sob ângulos como gestão, mercado, organização associativa, sucessão familiar e identidade territorial.

“A pesquisa foi uma oportunidade de reunir essas formações e contribuir com o movimento de reconhecimento e valorização da produção artesanal”, resume a autora.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Jornal e Beltrão 

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