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28 set 2026
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1. 🌱 A transformação já começou em algumas propriedades, mas sua expansão depende de respostas que vão muito além das práticas adotadas no campo.
🌾 O avanço da agricultura regenerativa depende de uma equação que ainda desafia o setor: investimento, resultados mensuráveis e programas adaptados à realidade de cada propriedade.
🌾 O avanço da agricultura regenerativa depende de uma equação que ainda desafia o setor: investimento, resultados mensuráveis e programas adaptados à realidade de cada propriedade.

A agricultura regenerativa já entrou nas estratégias de sustentabilidade de grandes empresas de alimentos, mas transformar experiências pontuais em uma prática disseminada pela cadeia láctea exige resolver um problema que começa dentro das propriedades:

Como financiar investimentos de longo prazo quando o produtor precisa de retorno em prazos muito mais curtos?

A questão esteve no centro de um debate realizado durante a Climate Week, em Nova York, com representantes da Nestlé e de empresas parceiras de sua cadeia de suprimentos. O encontro expôs um desafio que vai além da adoção de novas práticas agrícolas: construir modelos de colaboração capazes de viabilizar economicamente a transformação das fazendas.

A Nestlé informou que, desde 2018, as emissões de gases de efeito estufa e de metano em sua cadeia de fornecimento de leite diminuíram 26% e 25%, respectivamente. Os resultados foram apresentados por Katja Seidenschnur, responsável global pela sustentabilidade da área de nutrição e saúde da companhia.

Para ampliar esse avanço, porém, a empresa reconhece a necessidade de suporte técnico, dados, condições regulatórias favoráveis e colaboração entre os diferentes participantes da cadeia.

O desafio é particularmente concreto para quem precisa colocar os investimentos em prática.

O tempo do produtor e o tempo da transformação

Na Royal Dairy Farming, propriedade leiteira localizada no estado de Washington, nos Estados Unidos, a agricultura regenerativa está sendo testada em escala comercial. Com aproximadamente 7 mil vacas, a fazenda trabalha com a reciclagem de carbono e nutrientes por meio de processos naturais, incluindo compostagem e biofiltração com minhocas.

A operação acompanha indicadores relacionados à redução de carbono, reaproveitamento de resíduos, produção de fertilizantes e melhorias na saúde do solo.

Mas, segundo Austin Allred, proprietário da Royal Dairy Farming, o financiamento continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar essas iniciativas.

O problema está no descompasso entre o prazo necessário para investimentos de longo prazo e a capacidade financeira das propriedades. Allred explicou que os produtores não dispõem de capital para comprometer em projetos cujo retorno demora a aparecer.

Em sua realidade, o retorno sobre o investimento precisa ocorrer em aproximadamente seis dias. Em um ano muito favorável, esse prazo pode chegar a seis semanas ou, dependendo das condições, três meses.

É justamente nessa diferença de horizontes que a colaboração com a indústria ganha importância. A questão colocada pela Nestlé e por outras empresas de alimentos é como criar mecanismos de financiamento e incentivos que permitam aos fornecedores investir em mudanças estruturais sem comprometer a sustentabilidade econômica da operação.

O incentivo precisa chegar à fazenda

A California Dairies Inc. (CDI), cooperativa formada por quase 300 propriedades leiteiras independentes, é uma das fornecedoras de leite da Nestlé. Suas fazendas entregam aproximadamente 17 bilhões de libras de leite por ano à cooperativa.

Para Dixie Martinho, gerente de sustentabilidade da CDI, o avanço da produção sustentável depende de três elementos: incentivos financeiros, assistência técnica e flexibilidade para que cada produtor encontre soluções adequadas à sua operação.

A parceria com a Nestlé busca estabelecer um modelo no qual os produtores recebam apoio e sejam recompensados pelos investimentos realizados, sem que a adoção de novas práticas seja tratada como uma exigência uniforme para todas as propriedades.

A confiança no retorno financeiro é decisiva. Sem ela, o produtor precisa assumir sozinho o risco de uma transformação cujos resultados podem levar tempo para aparecer.

Martinho também apontou dificuldades na coleta de dados de qualidade. As informações precisam ser práticas, confiáveis e úteis para quem participa dos programas, mas essa combinação ainda representa um desafio.

Outro ponto é a diversidade das propriedades leiteiras. Segundo ela, as práticas de sustentabilidade não podem seguir um modelo único, porque as operações não são iguais.

A discussão coloca em evidência uma questão central para os programas de agricultura regenerativa: estabelecer objetivos comuns sem ignorar as diferenças entre os sistemas produtivos.

A transformação também passa pela alimentação das vacas

A expansão das práticas regenerativas não se limita às fazendas leiteiras. Parte do trabalho envolve a produção dos ingredientes utilizados na alimentação animal.

Em 2024, a Nestlé estabeleceu uma parceria com a Louis Dreyfus Company para apoiar agricultores argentinos na adoção de práticas de agricultura regenerativa no cultivo de soja e milho destinados à alimentação de vacas.

O objetivo é reduzir a pegada ambiental dessas culturas, ampliando o alcance das iniciativas para além das propriedades que fornecem leite diretamente à indústria.

Axelle Bodoy, responsável global pela agricultura regenerativa na Louis Dreyfus Company, também destacou a importância das redes de troca entre produtores. A possibilidade de aprender com experiências de outros agricultores é apontada como parte do suporte necessário para ampliar a adoção dessas práticas.

A colaboração, nesse contexto, envolve não apenas recursos financeiros e assistência técnica, mas também circulação de conhecimento dentro da cadeia.

O obstáculo de transformar pilotos em programas de escala

Mesmo quando uma iniciativa apresenta resultados em uma propriedade ou região, sua expansão depende de outro desafio: a compatibilidade entre os programas desenvolvidos pelas empresas.

James Havlock, vice-presidente e diretor-gerente comercial da Arva Intelligence, plataforma de dados para agricultura regenerativa, identificou dois obstáculos principais à adoção mais ampla: as diferenças geográficas e o desenho dos programas.

Segundo ele, empresas de alimentos e varejistas frequentemente trabalham com estruturas próprias, o que dificulta a construção de iniciativas compartilhadas.

A proposta defendida por Havlock é que os participantes da cadeia invistam conjuntamente em programas com um desenho comum.

A Arva trabalha com redes locais, cooperativas e agrônomos ligados ao varejo que já possuem relações de confiança com os agricultores. A estratégia busca aproximar a implementação dos programas da realidade de quem está no campo.

A padronização, nesse caso, não significa necessariamente impor as mesmas práticas a todas as propriedades, mas criar estruturas de colaboração que facilitem a expansão das iniciativas.

O debate apresentado durante a Climate Week aponta para uma mudança de escala na discussão sobre sustentabilidade do leite. O desafio já não está apenas em identificar práticas regenerativas ou demonstrar resultados em projetos específicos.

Está em organizar uma cadeia capaz de compartilhar investimentos, oferecer suporte técnico, produzir dados confiáveis e reconhecer que a transformação depende da viabilidade econômica de cada propriedade.

Como resumiu Austin Allred, a colaboração precisa acontecer tanto entre os próprios produtores quanto ao longo de toda a cadeia de suprimentos.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por  Dairy Reporter

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