O convite do Grupo Mais Food para integrar este diálogo ao lado de Andrés Padilla (Rabobank) e Maurício Paranhos (Mococa) não é um detalhe: é um indicativo de onde está sendo construída hoje a leitura estratégica do setor lácteo na América do Sul.
Não se trata apenas de produção, exportações ou consumo. Trata-se de como a região é interpretada dentro do tabuleiro global, quais variáveis explicam seus limites atuais e, sobretudo, o que precisa mudar para que esses limites deixem de ser estruturais.
A partir do eDairyNews, essa participação consolida um posicionamento que vai além do conteúdo: integrar o espaço onde se cruzam finanças, indústria e mercado.
Porque quando a análise se constrói entre quem financia, quem opera e quem interpreta a cadeia em tempo real, o que emerge já não é opinião — é critério de mercado.
O que segue é essa conversa:
Por: Erika Ventura
A América do Sul ocupa uma posição relevante no cenário internacional da cadeia láctea. Com produção significativa, consumo consolidado e potencial de crescimento, a região reúne condições naturais e produtivas favoráveis. No entanto, desafios estruturais ainda limitam sua presença no comércio global.
Dados do setor indicam que a região produz mais de 80 milhões de toneladas de leite por ano, com destaque para Brasil, Argentina e Uruguai. Apesar disso, apenas parte desse volume chega ao mercado internacional, refletindo um cenário em que o consumo interno ainda absorve a maior parte da produção.
Para Andrés Padilla, analista do Rabobank, a América do Sul continua sendo um player relevante no tabuleiro global, embora enfrente limitações estruturais que impactam sua competitividade. “Em termos de produção, os países do Mercosul representam aproximadamente 11% da produção total dos oito maiores produtores e exportadores (União Europeia, Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália, China, Brasil, Argentina e Uruguai), que são os mercados com influência relevante no cenário global.
O consumo de leite e derivados é significativo nos países do Mercosul, porém o crescimento limitado da renda per capita nas últimas décadas tem restringido o avanço do consumo potencial. Inclusive, em países como a Argentina, o consumo diminuiu aproximadamente 10% na última década. Culturalmente, o consumo na região poderia se aproximar do observado em países desenvolvidos, superando os atuais 180 kg por habitante e alcançando cerca de 250 kg por habitante. No entanto, o poder de compra limita esse potencial existente na região”, explica Padilla.
Embora compartilhem desafios semelhantes, os países sul-americanos apresentam modelos produtivos distintos, influenciados por fatores como clima, disponibilidade de grãos, estrutura fundiária e custos de produção. Padilla destaca que a cadeia leiteira regional passa por um processo gradual de consolidação.
“Pode-se dizer que, em média, a região passa por um processo de consolidação de sua produção primária de leite. Fatores como o custo da mão de obra, o preço da terra, o valor de novilhas/genética e a volatilidade climática têm levado produtores de menor escala e maior custo a migrarem para outras atividades rurais”.
Competitividade internacional
Entre os países da região, Uruguai e Argentina são os que mais conseguem transformar produção em presença internacional. “O Uruguai exporta aproximadamente 70% de sua produção nacional, o que evidencia sua competitividade, resultante de uma necessidade estrutural de direcionar o excedente ao mercado internacional. A Argentina, por sua vez, consegue exportar entre 20% e 25% de sua produção”, enumera Padilla.
Para Valéria Hamann, Digital Sales & Content Manager do portal eDairyNews, a América do Sul ocupa hoje uma posição intermediária, mas estratégica, na cadeia global.
“A América do Sul ocupa hoje uma posição intermediária, mas estratégica, no mapa global da produção leiteira. Não é um ator dominante, mas também não é marginal. Os sistemas pastorais e o clima favorável conferem competitividade de custos à região, mas isso também é um fator de risco quando essa variável falha, além da volatilidade dos insumos importados”, destaca Valeria.
Embora seja o maior produtor de leite da América do Sul, o Brasil ainda participa pouco do comércio internacional.
A analista observa que o país reúne condições para ampliar sua competitividade, mas enfrenta desafios estruturais importantes. “A cadeia apresenta ineficiências logísticas, altos custos de transporte interno, fragmentação entre produção e indústria e perdas ao longo da cadeia de frio”, detalha Hamann.
Tendências que moldam o consumo
Padilla reforça que o avanço das exportações brasileiras depende de melhorias na qualidade da matéria-prima e na estrutura industrial. A boa notícia é que o Brasil já demonstrou amplamente sua capacidade de ser um produtor e exportador agrícola altamente eficiente.
Em segmentos como açúcar e etanol, celulose, grãos, carnes e suco de laranja, o país está entre os líderes globais em produção e exportação. Esses setores têm enfrentado concorrência direta no mercado internacional há décadas e alcançaram os níveis de eficiência necessários para crescer de forma sustentável no comércio global. O setor lácteo pode seguir esses exemplos e, gradualmente, voltar a se tornar um exportador líquido.
Além das questões produtivas e comerciais, mudanças no comportamento do consumidor também influenciam o futuro da cadeia láctea na região. “A demanda crescente por produtos com alto teor de proteína é, sem dúvida, uma tendência que veio para ficar”, afirma Padilla. Valéria corrobora com a opinião e observa o avanço de segmentos ligados à funcionalidade e à nutrição especializada.
“Ganham espaço os produtos enriquecidos com proteínas, probióticos e formulações voltadas para a nutrição especializada, desde idosos até atletas”, aponta a Digital Sales.
A visão da indústria
Na prática, empresas brasileiras já vêm explorando oportunidades de crescimento em mercados da América Latina. É o caso da Mococa, que mantém presença consolidada em diversos países da região.
“Atualmente, a América Latina é o principal mercado internacional da Mococa e ocupa uma posição estratégica dentro do plano de crescimento da empresa. Países como Venezuela, Bolívia e Paraguai são especialmente relevantes”, afirma Maurício Paranhos, gerente de Mercado Externo da empresa. Entre os produtos exportados estão mistura láctea condensada, bebida láctea sabor chocolate e, em menor escala, leite condensado tradicional.
Segundo o executivo, apesar da proximidade geográfica e cultural, a exportação envolve desafios importantes. “Os principais ajustes estão relacionados às exigências regulatórias e à adequação das embalagens. Em alguns países, é necessária a habilitação do SIF (Serviço de Inspeção Federal), além de pequenas adaptações nos rótulos, especialmente no idioma.
Do ponto de vista de formulação, as receitas brasileiras têm ótima aceitação na América Latina, o que reduz a necessidade de alterações nos produtos. Assim, o foco maior está no cumprimento das normas locais e na adaptação visual das embalagens “, explica Paranhos.
A logística também é um dos principais desafios da atuação internacional. Paranhos detalha que o cenário conta com variáveis como modal de transporte, tempo de trânsito e desembaraço aduaneiro, especialmente nas fronteiras terrestres, onde o acúmulo de caminhões pode gerar atrasos significativos.
A indústria brasileira de lácteos na América Latina conta com oportunidades amplas e que continuam em crescimento para os próximos anos. Os produtos brasileiros vêm ganhando cada vez mais espaço pela combinação de competitividade em preço, qualidade e proximidade geográfica. Assim, o Brasil se mantém como um player forte na região e no mercado global. A similaridade cultural, o hábito de consumo e a receptividade aos produtos brasileiros favorecem esse avanço.
“A Mococa exporta desde 1990 e já está presente em mais de 15 países, o que proporciona um profundo conhecimento das dinâmicas regulatórias, logísticas e comerciais de diferentes mercados. Essa bagagem permite à empresa operar com maior previsibilidade, agilidade e capacidade de adaptação, fortalecendo relações de longo prazo com clientes e consolidando sua presença internacional de forma sólida e sustentável”, conclui o gerente.
Potencial ainda em construção
Para especialistas e empresas do setor, o papel da América do Sul no mercado global de lácteos ainda está em evolução. No entanto, ampliar sua presença internacional dependerá de avanços em eficiência, logística, inovação e agregação de valor aos produtos.






