Queijo faz na boca das crianças | A volta às aulas trouxe de volta o mesmo dilema em milhões de casas: o que colocar na lancheira. Mas por trás dessa rotina diária existe uma pergunta que vai além da prática — e a ciência já tem parte da resposta.
A nutricionista Mariana Chaves, do programa “Aprender a Comer” (Rádio Observador), resume o lanche escolar ideal em uma regra simples: um laticínio, um cereal e uma fruta. A referência vem do guia “Lanches Escolares Saudáveis”, publicado pela Direção-Geral de Saúde de Portugal. O erro mais comum, segundo a especialista, é o oposto — lancheiras compostas quase inteiramente por carboidratos, como bolachas e sucos, sem equilíbrio nutricional.
Dentro dessa equação, o queijo cumpre um papel que vai além da praticidade. Uma fatia de cerca de 20 gramas fornece 5 gramas de proteína e 140 miligramas de cálcio — nutrientes centrais em uma fase de crescimento e formação da massa óssea, como é a infância e a adolescência.
Mas há um efeito menos conhecido, e que foi o verdadeiro destaque da conversa: o impacto do queijo sobre a saúde bucal. Segundo Chaves, um estudo de 2013 publicado em uma revista da área de medicina dentária analisou adolescentes de 12 a 15 anos que consumiam queijo, leite e iogurte sem açúcar. No grupo que consumiu mais queijo, o pH da boca aumentou após a ingestão — ou seja, o ambiente bucal ficou menos ácido.
O mecanismo por trás desse efeito está ligado à forma como o corpo reage a diferentes alimentos. Quando se consome açúcar ou amido — caso do pão, por exemplo —, as bactérias da boca produzem ácidos que reduzem o pH e favorecem a desmineralização do esmalte dentário. O queijo parece atuar no sentido contrário, e por dois caminhos distintos, segundo a nutricionista.
O primeiro é mecânico: o queijo precisa ser mastigado, e a mastigação estimula a produção de saliva, que ajuda a neutralizar a acidez bucal. Chaves faz um contraponto direto às populares “papinhas” de fruta em bisnaga, que são engolidas sem mastigação — ao contrário de uma maçã inteira, por exemplo, que exige mastigar e, com isso, produzir mais saliva.
O segundo caminho é composicional: o queijo contém caseína — sua principal proteína —, além de cálcio e fósforo, elementos que contribuem para a remineralização do esmalte. Chaves faz questão de relativizar o achado: o queijo não substitui a escovação nem deve ser tratado como um produto de higiene bucal.
Mas, na lógica do lanche escolar, ele pode ocupar um lugar estratégico — inclusive sendo o último alimento consumido, em vez do tradicional fechamento com bolacha e bebida açucarada, combinação que deixa a boca mais ácida sem repor cálcio ou fósforo.
Um ponto de atenção, no entanto, recai sobre o sódio. O queijo tende a ter mais sal do que o iogurte ou o leite, o que reforça a importância de diversificar os laticínios ao longo da semana e observar os rótulos nutricionais — já existem no mercado versões com teor reduzido de sal, além do queijo fresco, que costuma ter menos sódio. Para crianças que não consomem laticínios de origem animal, a nutricionista cita a soja como alternativa viável de fonte de cálcio.
Na prática, o queijo pode entrar na lancheira de diferentes formas: em cubos para petiscar, em wraps com abacate, batido com atum para passar no pão ou simplesmente fatiado sobre um pão de mistura — que, por ter mais fibra que o pão branco, também contribui para o equilíbrio nutricional do lanche.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Observador






