Seguimos com Protagonistas Lácteos, a série de entrevistas exclusivas da eDairy News dedicada às vozes que moldam o rumo da indústria láctea global.
Nesta segunda parte da conversa com Piercristiano Brazzale, o foco passa do debate ambiental para a estrutura da produção: a consolidação global irreversível das fazendas leiteiras, a prioridade de investimento que deve guiar qualquer produtor e um número que atravessa toda a conversa: o mundo caminha para um déficit de leite no comércio internacional que, segundo projeções da FAO e do Rabobank, pode chegar a 30 milhões de toneladas até 2030.
– No mundo todo, vemos uma consolidação constante das propriedades rurais e dificuldades generalizadas na sucessão geracional. Como o senhor imagina a estrutura das fazendas leiteiras daqui a uma década?
P. Brazzale: “Sem dúvida, a agregação e a consolidação das fazendas leiteiras é um fenômeno irreversível, que acontece em todos os lugares. Na Europa, já está consolidado: o tamanho médio das fazendas é altíssimo. Mas também ocorre em países onde ainda existem pequenas fazendas familiares, como a América do Sul, a África e, sobretudo, a Índia.
Lembre-se de que, das 132 milhões de pequenas fazendas leiteiras do mundo, 80 milhões estão na Índia, ainda que tenham, em média, de 2 a 3 vacas. No entanto, conversando com M. Shah, presidente do NDDB (National Dairy Development Board), o órgão estatal de laticínios da Índia, ele me contou que a consolidação está acontecendo lá também.
Ou os pequenos produtores familiares se agrupam em cooperativas e concentram suas vacas em fazendas cooperativas, ou investem para crescer, porque, seja por razões econômicas, de conveniência ou para melhorar a gestão e a profissionalização, buscam se unir e deixar para trás as pequenas operações de 2 a 3 vacas por família, que se tornaram insustentáveis. Portanto, essa tendência a fazendas maiores é irreversível.
Isso também é evidente na América do Sul, de onde a senhora vem: na Argentina, no Chile e no Brasil, as pequenas fazendas vão desaparecendo gradualmente enquanto as médias aumentam, tanto em número de animais quanto, principalmente, em produtividade.
E a América do Sul pode se tornar um ator-chave no abastecimento do leite que o mundo hoje não tem, porque as projeções (a situação do mercado hoje é um pouco negativa, sobretudo na Europa, onde parece haver superprodução), mas, na realidade, todas as projeções do Rabobank indicam que, até 2030, o comércio internacional terá um déficit de cerca de 30 milhões de toneladas de leite.
São projeções do Rabobank, apesar de agora parecer haver oferta suficiente. Mas já existem os primeiros sinais de mercado, depois de um ano, ou de alguns meses, de excedente, de que o leite começa a escassear.”
– Se tivesse que apontar uma única prioridade estratégica em que o produtor leiteiro deveria investir hoje para garantir sua operação nos próximos 15 anos, qual seria?
P. Brazzale: “Se eu tivesse que dar um único conselho a um produtor de leite, seria investir em eficiência, em produtividade, em vacas produtivas, mas não excessivamente forçadas, porque uma vaca muito forçada também se torna mais frágil. Ou seja, vacas com o equilíbrio certo entre rusticidade, resiliência e também produtividade e conversão alimentar. Na verdade, a eficiência de conversão alimentar é o primeiro ponto em que se deve investir.
Depois, é preciso investir em tecnologia. Hoje existe também um problema de sucessão e um problema de mão de obra, de encontrar trabalhadores dispostos a atuar nas fazendas. Por isso é preciso investir em tecnologia, em robotização, em maior eficiência no preparo da dieta total misturada (unifeed) e em melhoramento genético; em suma, investir nas tecnologias de última geração.
Sem dúvida, esse é um dos fatores que impulsionam a consolidação das fazendas, porque são investimentos logicamente caros, mas que trazem eficiência e permitem ao produtor permanecer no mercado graças à competitividade e à eficiência da produção. E faz sentido que apenas certas escalas permitam esse tipo de investimento.
Mas eu vi esses investimentos de perto, visitando fazendas no Chile no ano passado, mas também na Argentina e até em fazendas novas na China, onde investiram enormemente em tecnologia e em genética. É a única forma de tornar o processo produtivo eficiente e o leite competitivo no mercado.”
Nota editorial / Aviso legal: As opiniões expressas são de Piercristiano Brazzale a título pessoal e não devem ser interpretadas como posições da Federação Internacional de Laticínios (FIL/IDF), de seus comitês ou de seus membros.
Quem é Piercristiano Brazzale
Piercristiano Brazzale foi presidente da Federação Internacional de Laticínios (FIL/IDF) de 2020 a 2024 (cargo hoje ocupado por Gilles Froment) e atualmente é representante ambiental no Comitê de Coordenação Científica e de Programas (SPCC) da entidade. Além de sua liderança em organismos lácteos internacionais, é coproprietário e CEO da Brazzale S.p.A., a mais antiga empresa de laticínios em atividade na Itália, representando a sétima geração à frente do negócio familiar fundado em 1784.
Em breve: na Parte Três de Protagonistas Lácteos, Brazzale explica por que vê a Índia e a América do Sul como os principais motores do crescimento lácteo global e por que acredita que o boom mundial das proteínas não é uma moda passageira.






