Usuários de GLP-1 ainda compram sorvete em grande proporção, mas seu comportamento abre espaço para uma nova lógica de produto: menos quantidade, mais funcionalidade e experiência.
Quase 90% dos usuários de GLP-1 ainda compram sorvete, segundo dados da Mintel apresentados no material. Mais do que preservar uma compra, esse grupo também demonstra uma forte relação emocional com a categoria: 92% afirmam que comer sorvete é divertido, contra 85% entre os consumidores de sorvete que não usam GLP-1.
O contraste ajuda a explicar por que a categoria pode oferecer uma pista importante para outros segmentos de alimentos que enfrentam consumidores com apetite reduzido.
A questão, nesse cenário, não parece ser simplesmente comer menos. É encontrar uma forma diferente de manter o prazer.
Stephanie Mattucci, principal strategist da Mintel, destaca justamente essa dimensão: usuários de GLP-1 não perderam a busca por alegria na alimentação. E o sorvete reúne características que favorecem essa conexão, como textura cremosa, sabor e possibilidades de inovação.
Os números reforçam a percepção. Entre consumidores de sobremesas congeladas que utilizam GLP-1, 85% dizem que comer sorvete melhora seu humor, contra 78% do conjunto de consumidores de sobremesas congeladas.
O tamanho passa a fazer parte do produto
Uma das respostas mais evidentes da categoria está no próprio formato.
O sorvete permite trabalhar com diferentes tamanhos e ocasiões de consumo. Um pote, por exemplo, pode ser aberto para pequenas porções e novamente armazenado no freezer. Já os formatos menores permitem transformar a indulgência em uma experiência mais controlada.
Essa lógica aparece em produtos como Magnum Mini, além de versões ainda menores, como Magnum Bonbon e Ben & Jerry’s Peaces.
Não se trata apenas de atender quem utiliza GLP-1. Formatos menores também dialogam com consumidores que querem controlar o peso ou simplesmente preferem uma indulgência de menor tamanho.
Peter ter Kulve, CEO da Magnum Ice Cream Company, resumiu a mudança ao destacar escolhas mais deliberadas entre consumidores de GLP-1, associadas a porções menores, menos calorias, maior densidade nutricional, ingredientes reais e mais proteínas.
A estratégia também aparece nos resultados apresentados pela empresa: no primeiro semestre, as quatro principais marcas — Magnum, Ben & Jerry’s, Cornetto e Heartbrand — registraram crescimento, enquanto sabores e formatos estiveram entre os elementos de inovação.
Um exemplo citado no material é Signature La Pistache, apontado como a principal inovação em sorvetes na Europa.
A indulgência também pode carregar uma função
A outra transformação está na composição.
O sorvete passou a incorporar diferentes propostas dentro do território de produtos considerados “better-for-you”. Segundo Mattucci, a categoria oferece alternativas que vão de alto teor de proteína a baixo teor de lactose.
O comportamento dos consumidores de GLP-1 também mostra maior flexibilidade entre propostas. 59% dos usuários de GLP-1 alternam entre sorvetes de calorias integrais e opções better-for-you, contra 53% dos consumidores que não utilizam GLP-1.
Isso cria espaço para um portfólio que não precisa escolher entre indulgência e funcionalidade.
O movimento aparece em diferentes formatos e posicionamentos. A americana Two Spoons, por exemplo, trabalha com sorvete com 30 g de proteína por pote, sem açúcar adicionado e com alulose como adoçante. No Reino Unido, a Happy Jo’s utiliza eritritol e comunica baixo índice glicêmico.
Outras marcas exploram caminhos diferentes. Halo Top e Oppo Brothers destacam o baixo teor calórico, enquanto a Yeo Valley utiliza uma textura semelhante à do sorvete para trabalhar com kefir congelado associado à tendência de saúde intestinal.
A Yasso, da Magnum nos Estados Unidos, segue outra combinação: uma sobremesa congelada à base de iogurte grego, disponível em formatos como sanduíches, barras e pequenos pedaços.
Após a expansão de palitos para potes, a empresa registrou crescimento de dois dígitos em sua oferta de alto teor proteico e baixo teor calórico, segundo ter Kulve.
O que muda para a indústria
O caso do sorvete sugere que a adaptação ao consumidor de GLP-1 não precisa significar abandonar a indulgência. Pode significar redesenhá-la.
Porções menores, formatos bite-size, produtos com mais proteína, menor quantidade de açúcar ou calorias e novas propostas funcionais aparecem lado a lado com sabor, textura e elementos de diversão.
Essa combinação é particularmente relevante porque o consumidor pode circular entre diferentes propostas dependendo da ocasião, em vez de escolher definitivamente entre o produto tradicional e a versão funcional.
Dave Richhart, VP de vendas da Ellison Custom Food Ingredients, chama atenção justamente para essa velocidade de adaptação. Segundo ele, algumas empresas passaram um ano desenvolvendo sorvetes com alto teor de proteína e ingredientes voltados aos consumidores de GLP-1, enquanto outras apostaram na redução do tamanho das porções.
A conclusão colocada no material é direta: a questão para as marcas não é apenas saber se o GLP-1 vai modificar uma categoria, mas quem estará fazendo essa transformação.
No sorvete, a resposta até agora passa por uma combinação pouco óbvia: menos quantidade não significa necessariamente menos prazer.
E talvez esteja aí a principal lição para a indústria de alimentos: quando o consumidor muda, a oportunidade pode não estar em retirar a indulgência do produto, mas em descobrir quanto dela ele realmente quer, quais benefícios espera receber e de que maneira deseja vivê-la.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Reporter






