ESPMEXENGBRAIND
13 jan 2026
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Com o preço do leite abaixo do custo, produtores relatam perdas, abandono da atividade e insegurança sobre o futuro 🧊
O recuo do preço do leite expõe um descompasso estrutural entre oferta, consumo e política setorial no início de 2026 📉
O recuo do preço do leite expõe um descompasso estrutural entre oferta, consumo e política setorial no início de 2026 📉

O preço do leite pago ao produtor iniciou 2026 sob forte pressão no Rio Grande do Sul, refletindo um conjunto de fatores que vão além da sazonalidade tradicional do setor.

A combinação de produção em níveis recordes, crescimento limitado do consumo interno e aumento expressivo das importações de derivados lácteos tem provocado um descompasso estrutural entre oferta e demanda, com impacto direto sobre a renda no campo.

Segundo avaliação do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Rio Grande do Sul (Sindilat), a queda nos valores pagos ao produtor se intensificou a partir de setembro de 2025. No Estado, a produção de leite cresceu cerca de 12% ao longo do último ano, enquanto a média nacional avançou aproximadamente 8%. Esse aumento, no entanto, não foi acompanhado pelo consumo, que segue em expansão modesta, estimada em torno de 1% ao ano.

Esse desequilíbrio se reflete nos preços de referência do Conseleite. Atualmente, os valores pagos ao produtor variam entre R$ 1,85 e R$ 2,15 por litro, conforme volume entregue e indústria compradora. Em agosto de 2025, esses mesmos preços oscilavam entre R$ 2,60 e R$ 3,10, configurando uma queda próxima de 30% em poucos meses. De acordo com o Sindilat, em muitos sistemas produtivos esses patamares já não cobrem os custos de produção.

O cenário é agravado pelo avanço das importações de derivados lácteos, especialmente da Argentina e do Uruguai. Até 2022, esses produtos representavam cerca de 2% do consumo nacional. Em 2025, essa participação saltou para aproximadamente 9%. Grande parte das importações envolve leite em pó e queijo muçarela, utilizados por indústrias de alimentos e grandes redes varejistas, o que amplia os estoques internos e reduz o espaço para a matéria-prima nacional.

Na avaliação de Darlan Palharini, secretário-executivo do Sindilat e coordenador do Conseleite no RS, medidas emergenciais podem aliviar o curto prazo, mas não resolvem o problema estrutural. Ele cita, por exemplo, a compra anunciada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de 2,5 mil toneladas de leite em pó da agricultura familiar, volume equivalente a cerca de 20 milhões de litros de leite integral. Embora positiva, a iniciativa é considerada insuficiente frente a estoques industriais estimados em cerca de 100 mil toneladas de leite em pó no país.

No campo, os efeitos da queda do preço do leite são sentidos de forma mais intensa por pequenos e médios produtores. Há relatos de dificuldades para manter a atividade e de abandono da produção em diversas regiões. O produtor Aloisio Finkler, de Venâncio Aires, no Vale do Taquari, afirma que mesmo com ganhos de produtividade e investimentos contínuos em genética, mecanização e alimentação do rebanho, os custos seguem elevados. Em novembro de 2025, ele recebeu R$ 1,96 por litro, contra R$ 2,52 no mesmo mês de 2024, uma redução de 22%.

Segundo Finkler, o aumento das importações pressiona cooperativas e indústrias a reduzir os valores pagos para competir no mercado. Ele também manifesta preocupação com a assimetria regulatória, destacando que produtores brasileiros precisam cumprir rigorosas exigências sanitárias e de qualidade, enquanto há dúvidas sobre os controles aplicados ao leite em pó importado.

Para o Sindilat, além de medidas emergenciais, o setor demanda ações com impacto imediato, como a aplicação provisória de sobretaxas sobre importações de leite em pó, manteiga, soro e muçarela, além da revisão das licenças de importação. Essas propostas se baseiam em investigações sobre subsídios concedidos por países vizinhos, que teriam ampliado significativamente a presença de derivados importados no mercado brasileiro.

Palharini ressalta que a cadeia leiteira passa por um processo de transição e reestruturação. A redução no número de produtores ocorre paralelamente ao aumento da produtividade, com propriedades maiores, mais tecnificadas e com maior escala. No entanto, fatores como envelhecimento dos produtores, dificuldades de sucessão familiar, falta de mão de obra e eventos climáticos extremos têm acelerado a saída da atividade, especialmente entre unidades menores.

A expectativa do setor é de relativa estabilidade nos preços ao longo de janeiro e início de fevereiro, período tradicionalmente marcado por menor consumo devido às férias escolares. Uma eventual recuperação é projetada a partir de março, com a retomada das atividades econômicas e do calendário escolar. Ainda assim, o início de 2026 é descrito como delicado, e a recuperação do preço do leite é vista como decisiva para garantir a permanência das famílias no campo e a sustentabilidade de toda a cadeia.

 

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