O Brasil exporta alimentos para mais de 190 países e registra recordes anuais de produção agropecuária.
Mesmo assim, a discussão sobre segurança alimentar que ocupou o Plenário do Senado Federal em 13 de outubro não ficou restrita a quanto o país colhe. O ponto de tensão foi outro: quem consegue pagar pelo que chega à mesa.
A sessão solene, requerida e presidida pela senadora Tereza Cristina (PP-MS) por meio do Requerimento REQ 18/2026, homenageou o Dia Mundial da Alimentação. Tomou como referência o slogan da campanha 2026 da FAO, “Inovar hoje para nutrir o amanhã”. Reuniu parlamentares, representantes do governo federal e entidades do setor produtivo.
A escala do desafio apareceu nos números apresentados por Cleber Oliveira Soares, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Para atender à demanda mundial de 2050, será preciso ampliar a produção em 40 milhões de toneladas de proteínas e 1 bilhão de toneladas de grãos. Hoje, cerca de 800 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda, e outras 2 bilhões convivem com a forma crônica.
Para Soares, a capacidade produtiva brasileira pode atender parte dessa demanda. Produzir e exportar, segundo ele, amplia a disponibilidade de alimentos e movimenta a economia, com efeitos também sobre a segurança alimentar internacional.
O peso interno dessa engrenagem foi detalhado por Julia Cortez, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A agroindústria acrescentou R$ 1,4 trilhão ao PIB em 2025 e gerou cerca de 2 milhões de empregos diretos e 10 milhões de indiretos. Para ela, o que importa não é só o volume produzido, mas como os benefícios econômicos se distribuem ao longo da cadeia.
É aí que entra a ressalva mais incisiva da sessão. Humberto Miranda Oliveira, vice-presidente de Finanças da CNA e presidente da Faeb, afirmou que aumentar a produção, isoladamente, não resolve a fome, porque a renda das famílias define quem consegue comprar comida. Na visão dele, o enfrentamento passa por combater a pobreza, ampliar oportunidades de trabalho, elevar a renda e garantir preços acessíveis, com políticas que conciliem produtividade, sustentabilidade, competitividade, crescimento econômico e estabilidade fiscal.
O representante do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Osmar Junior, seguiu a mesma linha. Reconheceu a importância da produção brasileira, mas lembrou que a disponibilidade de alimentos precisa vir acompanhada de políticas públicas que garantam acesso à população.
A inovação, porém, seguiu como alicerce do discurso. Tereza Cristina ligou os avanços da agropecuária ao investimento em ciência, pesquisa e tecnologia, e o senador Jayme Campos (União-MT) lembrou a dimensão da cadeia, dos produtores e cooperativas aos transportadores e comerciantes. Daniela Marreco Cerqueira, da Anvisa, defendeu a integração entre instituições públicas, setor produtivo, universidades e sociedade civil.
Também estiveram na sessão João Dornellas, presidente-executivo da Abia, Marcos Borges de Castro, da CNI, e Alexsandro França Martins, presidente da Abip. O recado que ficou combina duas frentes: o Brasil precisa ampliar a oferta de alimentos e, ao mesmo tempo, garantir que eles cheguem à população a preço que ela possa pagar.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Jornal Grande Bahia






