A exportação de queijo de leite cru brasileiro para os Estados Unidos marca um ponto de inflexão para o segmento artesanal, ao demonstrar que há demanda externa por produtos diferenciados e que a cadeia pode capturar valor além do mercado doméstico.
O envio de 600 quilos do queijo Mandala, curado por cerca de um ano, pela Queijaria Pardinho Artesanal, sinaliza que o produto atende requisitos e encontra espaço em consumidores dispostos a experimentar.
O movimento não se sustenta apenas na novidade, mas na proposta de valor. O queijo de leite cru se posiciona por maior complexidade sensorial, associada ao chamado “terroir tropicalizado”, com notas que remetem a frutas como goiaba, pêssego e damasco. Essa diferenciação não existe nos mercados tradicionais europeus e, portanto, não compete por padrão, mas por singularidade. Na prática, isso desloca a lógica de competição do volume para identidade e experiência.
Esse posicionamento está diretamente ligado às condições produtivas. A base genética do rebanho, o manejo animal e de pastagens e a biodiversidade influenciam o leite e, consequentemente, o perfil do queijo. O resultado é um produto com maior diversidade de bactérias e sabores, o que sustenta preços mais elevados. Na própria queijaria, o quilo do Mandala varia conforme o tempo de maturação, refletindo o valor agregado do processo.
No entanto, o avanço externo contrasta com limitações internas. O texto evidencia a distância entre o preço recebido pelo produtor e o valor pago pelo consumidor final. Em alguns casos, o queijo mais que dobra de preço ao longo da cadeia. Esse descolamento reduz a captura de valor na origem e enfraquece o incentivo à produção de maior qualidade.
Nesse contexto, a organização dos produtores emerge como fator crítico. A atuação de associações, como a Aprosud no Sudoeste do Paraná, aponta para a necessidade de maior controle sobre a comercialização. Sem isso, mesmo produtos valorizados tendem a perder margem nos elos seguintes.
Outro ponto relevante é o ambiente regulatório. A exigência de maturação prolongada para queijos de leite cru convive com estudos que indicam possibilidade de redução desse tempo. Essa tensão entre norma e prática impacta diretamente a viabilidade comercial, especialmente para produtores que buscam giro mais rápido sem comprometer qualidade.
O caso também sugere limites de escala. Trata-se de um produto de alto valor, com volumes restritos e forte dependência de atributos específicos. Isso indica que o crescimento do segmento não deve ocorrer por expansão massiva, mas por consolidação de nichos premium, tanto no mercado interno quanto externo.
Ao reunir validação internacional, diferenciação sensorial e desafios de captura de valor, a exportação do queijo Mandala expõe uma leitura clara: há mercado para o queijo artesanal brasileiro de leite cru, mas a rentabilidade depende menos da produção em si e mais da capacidade de posicionamento e controle comercial dentro da cadeia.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Jornal de Beltrão






