Ultraprocessados já representam até 60% das calorias diárias em países de alta renda — um dado impactante que ajuda a explicar por que eles estão no centro do debate sobre alimentação e saúde.
Mas o que exatamente são ultraprocessados? De forma simples: são produtos criados a partir de formulações industriais complexas, que passam por processos intensivos para melhorar sabor, textura e durabilidade. A classificação NOVA divide os alimentos em quatro grupos, e os ultraprocessados ocupam o nível mais distante da comida in natura.
Na prática, isso significa refinamento de ingredientes — como a retirada de fibras de farinhas e açúcares —, hidrogenação de óleos para formar gorduras trans estáveis e adição de conservantes, aromatizantes artificiais, realçadores de sabor, corantes, emulsificantes e estabilizantes. Tudo pensado para tornar o produto mais atraente, padronizado e durável nas prateleiras.
O resultado? Alimentos que não existem na natureza e que são desenhados para serem hiperpalatáveis. Essa combinação pode estimular o consumo excessivo e até comportamentos próximos à dependência alimentar.
Nas últimas quatro décadas, o mundo assistiu a um aumento expressivo das taxas de sobrepeso e obesidade. Embora fatores como sedentarismo tenham peso, uma mudança estrutural importante foi a expansão exponencial dos ultraprocessados a partir dos anos 1980. O lanche clássico de pão com manteiga e açúcar, por exemplo, foi gradualmente substituído por produtos embalados e prontos para consumo.
A categoria inclui ainda derivados lácteos reformulados, aromatizados e com adição de adoçantes e espessantes, além de alternativas vegetais que imitam leite e queijo. O ponto central não é apenas a origem do ingrediente, mas o grau de processamento industrial.
Em mercados considerados maduros, começa a surgir uma reação. Consumidores buscam cada vez mais produtos com “clean label” — rótulos com ingredientes simples e facilmente reconhecíveis. No Reino Unido, uma pesquisa recente mostrou que 78% dos consumidores afirmam estar conscientes dos possíveis problemas nutricionais associados aos ultraprocessados, ante 62% no ano anterior.
Ainda assim, permanece a pergunta: essa maior consciência vai mudar o carrinho de compras? A conveniência, o preço competitivo e o sabor marcante continuam sendo trunfos poderosos da indústria.
Entre praticidade e saúde, o debate sobre ultraprocessados está longe de terminar — e começa, cada vez mais, dentro da casa de cada consumidor.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de CLAL News






