Antes de existirem livros de história, alguém já estava coalhando leite. O queijo é anterior à escrita, atravessou impérios, guerras e revoluções — e hoje continua sendo um dos alimentos mais universais do planeta.
Há milhares de anos, ele nasce do mesmo gesto simples: transformar leite em algo que dure mais, viaje mais longe e tenha ainda mais sabor.
Da Europa às montanhas do Himalaia, do Mediterrâneo ao interior do Brasil, cada região moldou o queijo à sua paisagem, ao seu clima e à sua cultura. Para um fim de semana sem pressa, convidamos você a fazer uma pequena viagem: 20 países, 20 queijos, infinitas histórias.
🇮🇹 Itália — o rei das raspas douradas
O icônico Parmigiano Reggiano é maturado por anos e pode revelar notas de frutas secas, caramelo e especiarias. Não é apenas um ingrediente: é patrimônio gastronômico e símbolo de tradição.
🇫🇷 França — o azul que amadurece em cavernas
O intenso Roquefort desenvolve seu mofo nobre em cavernas naturais. Cremoso, salgado e marcante, é daqueles sabores que dividem opiniões — mas nunca passam despercebidos.
🇬🇷 Grécia — frescor à beira-mar
Branca, levemente ácida e conservada em salmoura, a Feta nasceu para acompanhar o calor do Mediterrâneo, saladas e azeites perfumados.
🇳🇱 Países Baixos — tradição sobre rodas
O clássico Gouda pode ser jovem e macio ou envelhecido, firme e cheio de cristais crocantes. Nas feiras holandesas, suas rodas alaranjadas são quase cenográficas.
🇬🇧 Reino Unido — o mais popular do planeta
O famoso Cheddar nasceu em cavernas inglesas e hoje está presente em cozinhas do mundo inteiro. Pode ser suave ou intenso, sempre versátil.
🇨🇭 Suíça — o queijo dos grandes buracos
O tradicional Emmental é reconhecido pelos “olhos” na massa e pelo sabor levemente adocicado. Derrete como poucos.
🇪🇸 Espanha — personalidade ibérica
O celebrado Manchego, feito com leite de ovelha, combina firmeza e notas amanteigadas. É presença certa nas tábuas espanholas.
🇵🇹 Portugal — intensidade e identidade
O Queijo da Serra da Estrela é amanteigado, quase de colher. Nasce nas montanhas e carrega o sabor da tradição pastoril.
🇩🇰 Dinamarca — cremosidade azul
O elegante Danablu é um azul mais suave e amanteigado, ideal para quem quer começar a explorar sabores intensos.
🇹🇷 Turquia — maturado em pele
O tradicional Tulum amadurece em bolsas de pele de cabra. Resultado: aroma forte e personalidade marcante.
🇮🇳 Índia — o queijo do cotidiano
O fresco Paneer não derrete. Feito com ácido natural, é protagonista de pratos aromáticos e coloridos.
🇳🇵 Nepal — resistência nas montanhas
O duro e defumado Chhurpi pode ser mastigado por horas. Nasceu para suportar o frio e as longas jornadas no Himalaia.
🇯🇵 Japão — delicadeza floral
O cremoso Sakura aposta na suavidade e na estética refinada, refletindo o minimalismo da culinária local.
🇮🇱 Israel — salgado e elástico
O Akkawi é branco, macio e levemente salgado. Versátil, aparece tanto em pratos salgados quanto em sobremesas.
🇲🇽 México — força e tradição
O salgado Cotija é firme e intenso, perfeito para ralar sobre pratos típicos.
🇺🇸 Estados Unidos — herança europeia reinventada
Entre tantas versões modernas, o estilo Monterey Jack representa a adaptação americana às tradições do Velho Mundo.
🇦🇷 Argentina — o clássico das mesas familiares
O Pategrás é presença constante em sanduíches e tábuas, de sabor suave e textura elástica.
🇺🇾 Uruguai — herança colonial
O Colonia é macio, levemente adocicado e fácil de harmonizar.
🇳🇴 Noruega — doce e surpreendente
O curioso Brunost é marrom e tem notas de caramelo, resultado da concentração do soro do leite.
🇧🇷 Brasil — tradição redescoberta
Se durante décadas o Brasil foi lembrado principalmente por queijos frescos e cremosos, hoje o cenário é outro. O país vive uma revolução silenciosa nas queijarias artesanais.
O cremoso Catupiry virou sinônimo de categoria e atravessou gerações. Já o premiado Queijo Canastra ganhou reconhecimento internacional, levando o terroir mineiro para o mundo.
Do Sul ao Nordeste, surgem produtores que experimentam maturações longas, leite cru e técnicas europeias reinterpretadas com identidade tropical. O Brasil não apenas consome queijo: está aprendendo a contar sua própria história através dele.
Um alimento que atravessa fronteiras
Em algumas regiões do planeta, o consumo de lácteos foi historicamente menor. Ainda assim, o cenário global mudou. Países asiáticos ampliam sua demanda, novos mercados surgem e o queijo segue se reinventando — seja como prato principal, acompanhamento ou ingrediente gourmet.
No fim, cada queijo carrega mais do que sabor. Ele guarda clima, paisagem, cultura e memória. Uma roda pode contar a história de um vale inteiro. Uma fatia pode resumir séculos de tradição.
E talvez seja esse o segredo da sua longevidade: o queijo é simples na origem, mas infinito nas possibilidades.
Se o mundo inventou milhares de queijos, cada um de nós pode escolher o próximo destino — começando pela próxima tábua.






