Bônus passam a ser o eixo de uma mudança estrutural na Nestlé, que reformulou seu sistema de incentivos para 271 mil funcionários e elevou o teto de pagamento a 150% da meta para a faixa mais alta de desempenho.
O novo modelo substitui três por seis classificações. Colaboradores avaliados como “exemplares” poderão receber até 150% da meta de bônus, acima do limite anterior de 130%. Na outra ponta, a categoria “insatisfatória” não terá pagamento ou poderá receber, no máximo, 50% da meta, segundo pessoas familiarizadas com o tema.
A revisão altera um padrão histórico da companhia. Até então, quase todos os funcionários recebiam ao menos 80% do bônus, mesmo quando apenas cumpriam requisitos mínimos. O desenho anterior diluía diferenças de performance. Agora, a remuneração variável se torna mais assimétrica e explicitamente orientada a resultado.
A empresa confirmou o novo sistema e afirmou que a estrutura busca desenvolver pessoas e influenciar comportamentos. A mudança ocorre em um contexto de pressão por crescimento. As ações acumulam queda de cerca de 31% desde o pico de 2022, enquanto a companhia enfrenta demanda volátil, retração de volumes, custos elevados e o maior recall de fórmulas infantis de sua história.
O CEO Philipp Navratil, nomeado em setembro, declarou que todos, inclusive ele próprio, serão avaliados pelos mesmos indicadores. Segundo ele, será mais claro identificar quem performa acima ou abaixo do esperado. Na prática, o crescimento interno real, métrica que combina avanço de volumes e preços e é acompanhada de perto por analistas, passará a ser o principal critério para pagamento de bônus.
Funcionários já foram informados de que os resultados individuais estarão mais diretamente conectados ao desempenho do grupo e das divisões. Isso reforça a vinculação entre metas corporativas e remuneração variável, reduzindo o peso de avaliações mais amplas e menos objetivas.
O movimento dialoga com uma tendência mais ampla no setor de bens de consumo. A Unilever, por exemplo, cortou cerca de um quarto de seus 200 principais executivos, vinculou bônus ao desempenho departamental e reduziu a proporção de funcionários que recebem pagamentos próximos ao teto.
Ao adotar um sistema mais diferenciado, a Nestlé sinaliza uma inflexão cultural. O foco deixa de ser a estabilidade de pagamentos e passa a ser a distinção clara entre níveis de entrega. Em mercados desafiadores, a política de bônus torna-se instrumento direto de gestão de performance e de resposta a investidores.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Bloomberg






