A lactose costuma ser vista apenas como o açúcar natural do leite. No entanto, seu papel na nutrição infantil vai muito além do fornecimento de energia.
A lactose é um componente central para o desenvolvimento do cérebro do lactente, pois fornece não apenas calorias, mas também moléculas essenciais para a formação estrutural do sistema nervoso.
No organismo do bebê, a lactose é quebrada pela enzima lactase em dois monossacarídeos: glicose e galactose. Cada um segue caminhos metabólicos distintos. A glicose atua como fonte de energia imediata, enquanto a galactose desempenha funções estruturais fundamentais no cérebro em desenvolvimento.
A galactose é o único fornecimento dietético significativo desse monossacarídeo para o lactente. Uma vez absorvida, ela participa da síntese de cerebrosídeos e gangliosídeos, componentes essenciais das membranas celulares do sistema nervoso central. Essas moléculas estão diretamente associadas à mielinização, processo pelo qual os neurônios são revestidos por uma camada protetora que acelera a transmissão dos impulsos nervosos.
Esse processo é decisivo para a formação da conectividade neuronal durante os primeiros estágios da vida. Em outras palavras, a lactose não atua apenas como combustível metabólico, mas como matéria-prima estrutural para a organização do cérebro infantil.
Além da contribuição estrutural, a lactose também tem um papel energético importante. Aproximadamente 40% da energia total que o lactente recebe provém desse carboidrato. Sua digestão libera glicose e galactose de forma gradual, garantindo disponibilidade energética constante durante um período em que o cérebro apresenta alta demanda metabólica.
Outro aspecto relevante é o perfil metabólico da lactose em comparação com outros carboidratos utilizados em formulações nutricionais, como maltodextrinas ou jarabes de glicose. A lactose apresenta índice glicêmico menor, situado entre 46 e 65, enquanto a glicose possui índice de 100 e a maltodextrina pode chegar a 110. Isso significa que a lactose promove liberação de energia mais estável, evitando picos bruscos de insulina e proporcionando aporte energético sustentado.
Do ponto de vista sensorial e comportamental, a lactose também possui menor poder adoçante que sacarose ou frutose. Isso reduz a estimulação dos centros neurológicos de recompensa associados ao sabor doce, contribuindo para que o paladar do lactente não seja condicionado precocemente a níveis elevados de doçura.
Além do impacto neurológico e energético, a lactose pode favorecer a absorção de minerais essenciais. Evidências indicam que sua fermentação no intestino contribui para a acidificação do lúmen intestinal, aumentando a solubilidade de minerais como cálcio e magnésio e facilitando sua absorção. Em estudos com lactentes, fórmulas contendo lactose apresentaram maior absorção de cálcio em comparação com formulações sem esse carboidrato.
A relevância da lactose para o desenvolvimento também aparece quando se observam diferenças entre espécies. Existe uma correlação evolutiva entre a complexidade do cérebro, a duração da lactação e o teor de lactose no leite. Espécies com maior demanda de desenvolvimento neurológico tendem a produzir leite com maior concentração desse carboidrato.
Assim, a lactose não deve ser interpretada apenas como um açúcar presente no leite. Trata-se de um nutriente funcional que fornece energia, contribui para a construção estrutural do sistema nervoso e favorece a absorção de minerais essenciais. No contexto da nutrição infantil, essas funções explicam por que a lactose permanece como o carboidrato de referência em leite humano e em muitas formulações destinadas ao desenvolvimento inicial.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Lácteos Latam






