A cadeia leiteira da Ucrânia começa a enfrentar um desequilíbrio cada vez mais evidente entre crescimento das exportações e deterioração da rentabilidade no campo.
A redução contínua do rebanho leiteiro industrial já levanta preocupações sobre possível escassez de leite cru até o fim de 2026.
Nos dois primeiros meses deste ano, as fazendas industriais perderam 2.100 vacas, segundo dados citados pela Associação dos Produtores de Leite da Ucrânia. O movimento ocorre em um momento de forte pressão econômica sobre os produtores, que convivem simultaneamente com aumento de custos e queda nos preços pagos pelo leite.
De acordo com Olena Zhupinas, vice-diretora geral da entidade, os preços de compra do leite cru recuam há seis meses consecutivos. Com isso, a produção permanece sem rentabilidade há pelo menos quatro meses, ampliando a pressão financeira sobre as propriedades.
Ao mesmo tempo, os custos seguem avançando em diferentes frentes. As despesas com alimentação animal para a safra de 2026 devem subir entre 20% e 30% em relação ao ciclo anterior. Também aumentam os custos de manutenção do rebanho e os investimentos necessários para adequação das fazendas às exigências de integração europeia previstas para 2028.
Esse cenário começa a alterar as decisões dentro das propriedades leiteiras. Segundo a associação, parte dos produtores já avalia abandonar a atividade diante das perdas acumuladas. A entidade estima que a produção de leite cru pode cair entre 15% e 20% até o fim do ano caso não ocorram mudanças positivas no ambiente econômico do setor.
A pressão sobre a oferta aparece justamente em um período de forte expansão das exportações lácteas ucranianas. Em 2025, as vendas externas alcançaram US$ 400 milhões, mais de um terço acima do registrado no ano anterior.
Hoje, até 30% do leite cru produzido na Ucrânia é destinado à fabricação de produtos voltados à exportação. Antes da guerra, essa participação variava entre 10% e 15%. O principal destino continua sendo os países vizinhos da União Europeia.
Apesar disso, a própria associação considera improvável uma falta de produtos no mercado doméstico no curto prazo. A avaliação é que, caso a produção continue caindo, a redução deverá atingir primeiro os volumes exportados.
Além da perda de rentabilidade no campo, os produtores também enfrentam maior concorrência dentro do mercado interno. Produtos importados, principalmente da União Europeia, já representam cerca de metade dos lácteos presentes nas prateleiras dos supermercados ucranianos.
Segundo Zhupinas, os subsídios concedidos à produção e às exportações de leite na União Europeia ajudam a pressionar os preços pagos aos produtores locais, tornando a atividade cada vez menos atrativa economicamente.
A combinação entre retração do rebanho, avanço dos custos e concorrência externa começa, assim, a redefinir o equilíbrio da cadeia leiteira ucraniana. Mais do que uma oscilação conjuntural, o setor passa a lidar com sinais de redução estrutural da capacidade produtiva.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Global






